segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

01. obsessão










1

       Na penumbra frágil da Lua que penetrava na janela da velha mansão, irradiando uma luz contemplativa, estava, perdida num recanto, a sombra estática, vazia, de Ricardo Jorge.
       No pestilento ar que o envolvia, os seus olhos perscrutavam no silêncio desesperado e mórbido da sala decadente. Passou um breve olhar pelas paredes – mutiladas – e, depois, deambulou os pensamentos para algo mais transcendente, para as ânsias guardadas há já muito tempo no íntimo: desejava de novo ser feliz, algures num recanto qualquer do mundo, impune e simples.
       Pousou o olhar sobre as fotografias que tinha nas mãos e passou-as uma a uma, tentando examinar a possível fatalidade, se é que pudesse haver alguma, acabada de cair na sua presença.
       À medida que as revia, mais se admirava do porquê da rejeição das altas patentes àquelas imagens belas, estonteantes, altamente eróticas e sugestivas para a mente, mais ainda que aquilo que o corpo podia realizar. Mas, as imagens revelavam um certo choque cultural, haviam-lhe dito e, embora sendo um símbolo significativo, não tinha muito a ver com a realidade.
       Pousou a cabeça na almofada do cadeirão e desviou o olhar para lá, para além de toda a escuridão que envolvia o casarão, para uma luz que brilhava incandescentemente, algures perdida na noite e assim ficou, imóvel, no pestilento ar que reinava à sua volta; o odor indolente de tabaco e o cheiro nauseabundo de vomitado.
       Há já vários dias que ali estava, seguramente reconfortado no seu velho cadeirão da sua velha mansão, remexendo na sua velha memória, perdida agora, num corpo sedento de purificação, mas, ao mesmo tempo ciente da sua precariedade. Desde que soubera daquela notícia que havia predestinado a sua vida, os momentos que restavam: concebera a ideia de que mais nada predominava na sua decadente existência, senão o simples mas mordaz, o eficiente mas escrupuloso, o doentio mas refulgente – o suicídio.
       Havia tomado demasiadas cápsulas de Rohypnol e de Valium congestionadas com um pouco de Whisky velho, mas, tinha sido uma ideia absurda aquela; só o havia colocado num estado lastimoso, em constantes e violentos jactos de vomitado. De vez em quando um frio arrepiante fazia-o tiritar, mas apenas durava alguns segundos, sendo imediatamente invadido por um calor súbito. Mas, embora isso, continuava vivo. Esta ideia começava a causar-lhe grandes tormentos.
       Queria morrer, queria dizer adeus ao mundo, àqueles que o haviam desamparado, queria fugir das palavras que o agoniavam, das palavras que ardiam incessantes no íntimo, como um fogo sem fim, denso de fagulhas em busca de algo – ele, – para arderem... arderem interminavelmente.
       Depois, apagou-se a última luz que brilhava lá fora, cobrindo o casarão duma escuridão implacável, mas, ele, Ricardo Jorge, permanecera indiferente à humidade fria que agora se fazia sentir e ao vento que lá fora castigava os ramos das árvores numa dança violenta.










2

       Ricardo Jorge era um amante pouco auspicioso da fotografia; nascera conspurcado do espírito, pois era filho bastardo de uma mulher adicta da heroína e que constantemente se esvaía em charadas histéricas.
       Nunca conhecera o pai, nem mesmo agora se preocupava em saber da existência do seu paradeiro; havíam-no restringido a um mundo criado por eles e, agora, ele mesmo os restringia a esse mesmo mundo – o da infelicidade, da indiderença, da subsistência.
       Ergueu-se do cadeirão com certa dificuldade, de pernas cambaleantes, dormentes, em direcção a uma mesa de madeira encostada a uma parede. Acendeu o candeeiro poeirento e ficou uns segundos absorto num quadro que se estendia na parede mesmo à sua frente. Era uma fotografia a preto e branco que ele fizera, ali mesmo, em Lisboa, a um pedinte. Achou-a tão deliciosa, tão cheia de vida, tão estranha que decidiu emoldurá-la ali mesmo, na sala.
       Algumas lágrimas surgiram na face e passou a palma da mão direita pelo vidro da imagem e pareceu-lhe estar a ver, num espelho de trauma, o seu irrisório futuro. Num acto de desfasamento partiu com um só soco o vidro do quadro, cortando os dedos nas lascas. O sangue surgíu, vivo, vermelho – como só podia ser – da sua mão, como uma torrente de água suja.
       Agora, rouco de uma inexistente voz – há muito que deixara de falar – dirigiu-se ao telefone no hall da entrada. Marcou o número desejado e esperou silencioso, debaixo de uma inércia fria. Uma voz falou, meiga, calma, imperceptível aos ouvidos de Ricardo.
       – Sim, quem fala? – Repetiu a voz do outro lado da linha.
       – Sara? – Pronunciou o nome com dificuldade, não se apercebendo se o havia dito bem.
       – Sim, sou eu.
       – Desejava ver-te, Sara – Disse, tossindo. – Estou prestes a cometer uma loucura e preciso de desabafar. Preciso de ti, Sara, é importante.
       – Ricardo!? – Balbuciou ela, frenética. – É engraçado, depois daquelas palavras agora imploras. Como posso ajudar-te se me já abandonaste à muito?
       – Era necessário – Disse, hesitante.
       – Se já não me amavas, porque não o disseste simplesmente?
       – Eu amo-te, Sara – Respondeu ele, apático, de lágrimas nos olhos.
       – Deixa-me em paz, Ricardo. Eu já não existo, sou uma mera recordação na tua mente. Foi a tua memória que avivou a chama do meu nome e que te fez recordar a minha existência, nada mais... – Ela falava com lágrimas nos olhos, receando as suas próprias palavras, tão verdadeiras, tão cheias de ódio e ao mesmo tempo tão cheias de pena. – Eu morri, Ricardo. Eu já não existo, nem para ti nem para a tua imaginação. Agora, deixa-me.
       O som irritante de chamada desligada assolou o funesto ambiente e ficou a pairar como se ele esperasse de novo ouvir aquela voz doce, suave. Mas, não. O som continuava seguro de si. Deixou escorregar o telefone das mãos e caminhou, cabisbaixo, em direcção a uma escrivaninha no outro canto da sala. As pernas prendiam-lhe cada vez mais os movimentos, impedindo-o de os concretizar. Por fim lá conseguiu chegar. De uma gaveta retirou um diploma em seu nome, da School Of Arts nos Estados Unidos; diploma esse que abria as portas do fantástico mundo da fotografia profissional. Ele sabia que tinha mérito, que os seus trabalhos eram sempre realizados com o máximo profissionalismo e com todo o rigor técnico. Nunca podiam ser rejeitadas, nem mesmo por aqueles malditos gajos dos Estúdios Zoom.
       Rebuscou nas outras gavetas e encontrou, entre outras coisas, um livro antigo de Bruce Weber. Sorriu. Um sorriso sem alegria. Apertou-o contra o peito e ficou uns segundos, circunspecto, a ouvir o som do vento – noite negra aquela.
       Guardou-o de novo na mesma gaveta e caminhou para o sofá. Fora aquele livro, repleto com imagens de moda, que despertara nele um certo instinto criativo naquele mundo. Recordou, com alguma satisfação, o dia em que o ofereceram, dentro de uma caixa de cartão forrada a papel viscoso de cor azul. Tinha somente quinze anos, não sabia nem fazia a mínima ideia que aquelas folhas impressas e reunidas num volume iriam abrir-lhe as portas de um mundo por si ignorado. Contudo, não conseguiu recordar quem o havia oferecido.
       Sentou-se no cabedal gasto do sofá e deixou-se cair para trás, numa atitude de desânimo. Do bolso do robe retirou uma pequena Walter de calibre 45 e, convicto, levou aquele cano negro e curto às têmporas que tremiam de medo. Medo? Mas, era isso mesmo que ele queria – morrer, – como podia agora temer tal acto, tal ideia pré-concebida? Havia agora dúvidas...
       Encostou o cano à pele e fechou os olhos. Bastava puxar o gatilho uma vez e tudo, mas tudo, ficava resolvido, sem embaraços e arrependimento. A morte seria imediata, sem represálias, não sofreria nada, nem sequer tornaria a abrir os olhos e contemplar o ser demente, parco, em que se tornara. Bastava premir aquele gatilho ali tão perto e ao mesmo tempo tão longe.
       Puxa, maldito! Gritou para consigo.
       Seria fácil desistir duma vida cheia, modéstia à parte, de boas recordações e por causa dum maldito incidente, terminar tudo assim? Essa dor, a dor profunda, desapareceria? Não! Mas, para quê continuar? Tudo em si estava terminado, não havia mais nada que pudesse fazer nem a mais ninguém a quem recorrer.
       Era a fotografia que ele bem sabia trabalhar. Era a fotografia o seu principal amor... agora. E lembrou-se de Sara e das suas palavras, das suas malditas palavras.









3

       Agora, cansado no íntimo e de alma desfeita em névoa, à mercê dos seus dedos dormentes, estava a sua vida, o seu rosto sublime de fogo.
       Sentia-se sem nada, emerso num denso silêncio que sobre si, lento caia, escarnecendo a alma de malefícios mal-encarados.
       O dedo apertou, inseguro, mais um pouco o gatilho e o seu corpo tremeu num espasmo convulsionado. O suor parecia, agora, uma pasta pegajosa emarenhada nos seus cabelos a escorrer face abaixo. O pulso que segurava o revólver começou tambem ele a tremer, devido à pressão que fazia para suster a respiração. As gotas de suor  eram pesadas barras de aço inoxidável que o torturavam incessantemente sem despeito, obrigando-o a conter-se melindrosamente.
       Merda! Puxa lá essa merda! Gritou de novo para consigo, atormentando ainda mais os nervos, tremendo com o seu corpo, extasiado.
       – Perdoa-me, Senhor – Disse, com os olhos pregados ao tecto. – Perdoa-me todos os meus erros, todos os meus pecados e todas as tentações em que me deixei cair, mas, peço-Vos, com considerável respeito que me livrais desta dor – Lamentou-se da já distante face de Sara e de novo daquelas palavras.
       Nesse preciso momento, em que os nervos começavam, lentamente, a premir o gatilho, em que tomara definitivamente uma decisão – justa ou não, não interessava, – uma figura surgiu à soleira da porta do casarão. Uma sombra de branco, hesitante, feminina, de olhos rasgados de amor.
       – Não!!! – Gritou, tomada de um nervosismo histérico. – Não faças isso, peço-te, por ti, por mim... – hesitou – por nós.
       O corpo, dorido, de Ricardo Jorge permaneceu estático às breves, mas coerentes palavras daquela mulher... dela... Sara.
       – Meu Deus! – Balbuciou ele, sem voltar o olhar e sem retirar o revólver dos miolos. – Como tiveste coragem de vir aqui? Como tiveste a ousadia de vir presenciar este magnífico acto dramático duma peça muito pessoal, muito minha?
       Ela aproximou-se, balbuciando, com os olhos repletos de lágrimas, sem dizer qualquer coisa que fosse, sem encontrar palavras que o pudessem reconfortar, nem a ela.
       – Se pudesses voltar, amar-te-ia – Disse ele, consciente de que aquelas palavras nada mais eram, senão fantasias paranóicas. – Não mais voltaria costas ao silêncio da tua voz... – Sorriu escarnecidamente.
       – Estou ansiosa – começou ela, pouco à vontade, limpando as lágrimas com as palmas das mãos – para que voltes para mim, para o íntimo do nosso lar, para aqueles que te amam...
       – Quem é que me ama, Sara? – Interrompeu ele com desmesura. – Os seres repugnantes e caóticos dos teus velhos? Tu? Hà muito que perdi a esperança de encontrar alguem com quem pudesse repartir os meus sentimentos, os meus desejos. Essa esperança foi encontrada antes de mim por alguém. Odeio-me. Odeio esta fraqueza que sustenta esta mão – apontou para ela, – que não me deixa morrer; odeio este desejo de morrer e esta vontade de viver. Odeio-me! Odeio-me! Odeio-te, Sara! – Ele piscou os olhos, cobertos de suor e de lágrimas. – Agora vai, só me resta morrer...
       – Leva-me contigo! – As suas palavras pareciam verdadeiras, seguras daquilo que exprimiam.
       – Não posso. E mesmo que pudesse – reconsiderou, – não o faria.
       Ela aproximou-se mais, quase que podia sentir a sua respiração ofegante. Tentou tocar-lhe no ombro, mas, redimiu-se e disse:
       – Espera! Depois daquela conversa ao telefone eu pensei muito, a sério, Ricardo, a sério que pensei em tudo o que te disse – Calou-se. Colocou-se na sua frente, os olhos vermelhos e disse asperamente: – Eu fui egoísta, não, eu sou egoísta. Estava enganada a teu respeito e peço-te que me perdoes.
       – Cala-te, mulher! – Vociferou, sem pestanejar. – Que queres de mim? Que vieste aqui fazer? Como tens a ousadia de implorares a remissão dos teus pecados? Quem sou eu para ajuizar os teus feitos? -- Riu-se. Era um riso de escárnio, doentio.
       – Não, Ricardo. Tu mesmo o disseste... se eu pudesse voltar...
       – Eu não disse nada, mulher! – Ela viu os seus olhos arregalarem-se de um desejo incontrolável. Vacilou, temendo a fúria daquele olhar. – Agora já é tarde demais. Morreste, disseste-me.
       – Eu... eu...
       Ele tornou a rir, agoniado com tudo aquilo, com a imagem crua, mas presente, da mulher que amara, da mulher que incitara os seus desejos sexuais, que o fizera sentir-se um verdadeiro homem, que soubera dar o valor real do que era a vida; a mulher, que num verdadeiro aperto de desespero, havia negado escutar as suas palavras e, agora, sem saber porquê, queria que parasse com aquele drama e que reflectisse na estupidez do acto que concebera.
       Subitamente sentiu-se ameaçada pelos olhos  esvaídos em sangue de Ricardo, mas, depois, viu-se mesmo embrenhada num ambiente lúgubre. Até ela chegou o cheiro nauseabundo de vomitado e com ele um susto que lhe percorreu a espinha num ápice: aquele cano negro, profundo, prestes a fazer explodir a cabeça do homem, encontrava-se agora destinado a arrancar a sua. O seu corpo começou a tremer como varas ao vento, indiferentes aos olhos de Ricardo.
       – Agora vejo porque receio a minha morte. Talvez tirar-te a vida fosse uma solução mais viável.
       – Não creio.
       – Acreditas na vida depois da morte? Pensei bastante sobre isso, mas, poque achas que temo ao perder a vida? Eu digo-te: porque não consigo encontrar resposta. – Tornou a rir, desta vez com mais intensidade, com mais fulgor. – Achas que estou louco? – Esperou ouvir uma resposta que não chegou, depois acrescentou: – Eu acho que não.
       Ele viu um sorriso no seu rosto quando, por fim, baixou o revólver. Viu o chão voltejar sobre si, mas, não se sentiu cair, apenas uma ilusão. Sorriu.
       – Sinto-me feliz – Murmurou ela, caprichosamente. – Tenho uma surpresa para ti. Volto já. – Viu-a partir, num ritmo nervoso.
       Antes dela penetrar de novo na penumbra do casarão, um som ecoou pela noite dentro, um som seco, parecido com um tiro.










4

       Do escuro desprenderam-se dois rostos, silenciosos, pressionados pelo silêncio que se havia formado.
       Sara tomou nos braços a criança que tinha a seu lado e segurou-a, ferverosamente, contra o seu peito. Aproximaram-se do corpo estendido no velho cadeirão, jorrando sangue das têmporas e permaneceram de olhar fixo, quietas, envoltas na fragância promíscua da sala, contudo, ébrias.
       Sara enrugou os olhos, colocou a míuda no chão e ajoelhou-se aos pés de Ricardo. Tocou-o na face e depois nas mãos e olhou de seguida para o revólver que jazia no chão.
       – Sabes, querida Ana... – disse, sem tirar os olhos do corpo moribundo de Ricardo – Aquele senhor que eu queria que visses... não mais o vais conhecer.
       – Porquê, mamã?
       – Chegámos tarde demais. Como sempre, cheguei tarde demais. – Ergueu-se, mas, contudo, não tinha lágrimas nos olhos nem se sentia deprimida.
       – Quem é este senhor, mamã?
       – Um homem, querida. Um homem em todos os sentidos. Pensei ser digna do seu amor, mas estava enganada, sou fraca demais para suportar a sua força, a sua coragem.
       – Porque dizes essas coisa, mamã? Onde está o papá?
       – Sim, onde estará ele agora? – Respondeu, afastando-se com a míuda no seu encalce.
       Ouviu uma voz a cantar, vaiando lábias para si, numa melodia que não cansava e descobriu que ela jamais iria sossegar, nem na sua mente nem nas suas recordações.
       Depois, depois virou-se para Ana e encontrou diante de si aqueles olhos amenos, frescos, pequeninos, a brilharem suspensos na escuridão. Pediu a Deus que desse protecção, no seu rebanho, àquela pequena alma depois de deixar de ser digna de viver.
       Após isto, partiram... sózinhas... com lágrimas nos olhos, num choro inconsolável de dor.
Cova da Piedade
Setembro
1991

Sem comentários:

Enviar um comentário