terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

02. o homem de olhos cavados










1

       As pequenas gotas de sangue haviam acabado de cair na água suja do rio quando, vestida de negro, uma sombra se ajoelhou para banhar o rosto. Sentiu o frio da água entranhar-se nas mãos ásperas e olhou o horizonte. Estava escuro. Os barcos abandonados ao vento pareciam reflexos indecentes de tudo, excepto daquilo que realmente eram, ou pensava serem. Já não tinha certezas.
       Até ela chegou o odor fedorento do rio. Tentou erguer-se e sair dali o mais depressa possível, mas, não conseguiu. Sentiu uma dor agonizante percorrer-lhe todo o corpo e apertou as mãos de encontro à barriga estraçalhada.
       Soltou um grito de dor e o sangue rompeu, como um louco, pelas mãos fora, ainda com mais impetuosidade. Não parava. As dores eram cada vez mais insuportáveis e afluiam, vangloriosas, na sua carne flácida, orgulhando-se com o seu ar supremo.
       Olhou de novo o horizonte, para o rio cada vez mais negro, cada vez mais sujo de sangue, para os barcos. Pareciam agora mais longe, mais pequenos, indicifráveis, invisíveis, cada vez mais estranhos.
       Soltou um grito rumorejante quando se apercebeu que já não tinha forças, que já não tinha vontade de suportar aquele fardo e que, se esvaía lentamente. O sangue que não parava e as dores que aumentavam.
       Sentiu um peso descomunal desabar sob as pálpebras. Tentou manter os olhos abertos, acordados, mas aquele castigo era mais poderoso e, ela, coitada, fraca como era, não possuía robustez suficiente para sobreviver.
       Susteve a respiração e procurou no fundo do seu âmago uma última réstea de esperança, um último grito. Só queria um auxilio. Não importava de quem, apenas uma mão, uma mão que a segurasse, que a apertasse no peito, que acariciasse o seu cabelo, que a beijasse nos lábios, que a amasse. Mas, quem?
       Não havia ali mais ninguem, senão ela e os barcos que não eram barcos e o rio que não estava sujo mas sim manchado de sangue.
       O vento fraco bateu-lhe no rosto meigo e uma lágrima resvalou, sem receio, face abaixo. Saboreou o gosto amargo da mesma e, deixou-a, por fim, mergulhar no rio quando sentiu um desfalecimento tomar conta da sua razão.
       Baixou o olhar para as pedras da calçada do cais, para a mancha de sangue, cada vez mais volumosa; para o rio cada vez mais vermelho, cada vez mais sujo; para as mãos enregeladas. E o auxilio que nunca mais chegava.
       Sentiu um turbilhão dar-lhe a volta ao estômago – parecia que as tripas se lhe revolviam ao avesso – e, teve vontade de vomitar ao aperceber-se de um mau gosto nos lábios. Levou os dedos à boca. Fez pressão na língua e um jacto de vomitado mergulhou sobre a mancha de sangue, sobre o rio, agora ainda mais sujo.
       O seu corpo, agora sem vigor, desabou precipitadamente para a frente. A face enterrou-se na barriga arruinada e assim ficou, quieta, sem vida, indiferente aos passos da sombra que, tranquilamente, se aproximava.
       O homem ajoelhou-se a seu lado e puxou-lhe a cabeça para trás. Apesar do sangue que lhe ornamentava o rosto e do tom branco que expelia dos olhos, tinha uma cara agradável à vista. Envolveu-a nos seus longos braços e virou as costas ao rio. Era um homem de ombros arqueados, de olhos cavados e de barba espessa. Era alto, contudo, não tão alto como as colunas do cais.










2

       Os seus olhos abriram-se, revelando umas pupilas pequeninas e incolores. Teve dificuldade em contemplar o mundo ou quer que fosse que a rodeava. Na verdade, havia uma certa neblina bastante espessa que se lhe vagueava pela vista. E depois, havia também aqueles suores frios que resvalavam testa abaixo. Eram incontroláveis.
       Sentiu os lençóis que envolviam o seu corpo remexerem-se à borda da cama e sobressaltou-se. Deambulou o olhar pelo quarto, mas, nada. Estava escuro. Afinal, já não era simplesmente a neblina que lhe afectava a vista, havia mais qualquer coisa e, decerto, não era a escuridão.
       – Não gostava nada que morresses nas minhas mãos, rapariga.
       Ela voltou-se para a voz, ou, pelo menos, para o sitio donde pensava que ela vinha.
       – Que insinuação é essa? – Quis ela saber.
       – Mais que um conselho – Comentou de novo a mesma voz. – O problema é ter de encontrar o teu sustento.
       Ela remexeu-se na cama, exasperada. Sentiu uma dor aguda na barriga e, então, lembrou-se. Lembrou-se do sangue a alastrar-se rio fora, das tonturas, do desejo de perecer à beira daquele rio malcheiroso. Levou as mãos à barriga e, sentiu, debaixo dos seus dedos, uma ligadura ou algo parecido que lhe envolvia a cintura. Apercebeu-se então que estava nua.
       – Não precisas de temer – Assegurou a mesma voz, ao observar o receio instalado no corpo da rapariga. Viu-a cobrir os seios com as mãos e lançou um sorriso.
       Em passos lentos, aproximou-se dela, os seus dedos avançando, cuidadosamente, pelos lençóis. Ergueu uma mão, temendo de qualquer forma a indiferença dos seus gestos e, num movimento brusco, extraiu-lhe uma venda dos olhos. Afinal, era aquilo, porra! A maldita existência duma venda.
       Ela lançou um grito ao sentir-se violentada, não sabia bem porquê, talvez tivesse sido da inimaginável lucidez que, inoperantemente, tomava conta da sua razão.
       De repente, sentido-se confusa com a inolvidável presença que, silenciosamente, de venda nas mãos, a olhava, deixou de gritar. Apercebeu-se até dum brilho no seu olhar. Sentiu uma lágrima afluir na pele dos seus braços e desejou chorar, chorar em altos berros, com soluços.
       – Pronto... – Murmurou a voz, hesitantemente.
       Ela ergueu as sobrancelhas e, olhou-o.
       O homem que se estendia à sua frente era alto, tinha barba, estava sentado na cama e olhava para si. Pela primeira vez sentiu-se desejada, feliz. Nunca houvera ninguem que olhasse para ela como aquele homem. Não era um olhar voluptuoso nem um olhar que a destrui-a, era antes a prova da sua existência. Não que ela não existisse, mas era como sentir a ruptura das coisas que a condicionavam.
       Quis falar mas não conseguiu. Ficou quieta, silenciosa, de olhar parado, lendo com atenção as linhas sinuosas do rosto do homem. Estava claro. Depois, sentindo-se exausta, voltou-se, um pouco contrariada, para a janela fechada.
       Ele comprimiu os lábios e antes de tornar a falar serviu-se de um cigarro. Não arrastou as palavras, limitou-se a torná-las compreensiveis:
       – Na verdade, nem sequer me importo que morras. Contudo, não posso deixar que isso aconteça. É desumano. Deus atirou-me para o desespero mas ensinou-me a sobreviver, a voltar à vida.
       Ela continuava quieta, virada para a janela fechada, tentando perscrutar o vento. Não havia vento, apenas as incompreensíveis palavras daquele homem sem nome. Depois, baixou o olhar, para os seios nus e não teve vontade de os cobrir, de os refugiar debaixo dos braços. Ficou simplesmente absorta na sua existência, alheia a tudo: ao olhar do homem, aos seus gestos, ao fumo do cigarro. Ficou ali, a olhar os seios. Ela existia. Acariciou os seios, depois os mamilos e sentiu uma volúpia enorme apoderar-se do corpo. Ela também sentia. Afinal, sempre estava viva.
       – Hoje sinto-me feliz – Disse, num tom afável.
       – É assim tão rara essa sensação? – Inquiriu o homem.
       Ela hesitou. Observou os mamilos ficarem rigidos e depois ergueu o olhar. O homem parecia estar mais perto agora.
       – Só quando me drogo é que...
       – Porquê?
       – É o único momento em que me dá prazer. É o momento em que me liberto da realidade. Só dorovante a questão se me põe: encontrar droga ou morrer e sumir-me.
       O homem aproximou-se ainda mais, acariciou-lhe a face, limpou-lhe as lágrimas e teve vontade de a beijar.
       – Sinto-me cansada. Nunca pensei ficar cansada tão depressa.










3

       Sentia-se cada vez pior. As gotas de suor já não eram só frias, eram gélidas, cada vez mais pesadas, mais terríveis. O seu corpo transpirava, os lençóis prendiam-se às pernas, a todo o seu corpo. Tentou soltar as pernas, mas era impossível. Os lençóis apertavam-na cada vez mais, agarravam-se ao corpo, rastejavam pelo corpo, agora mais ardente.
       Ao sentir que algo lhe envolvia o pescoço – algo macio, acetinoso, – tentou segurá-lo, mas, não havia nada. Nada!
       Não havia lençóis, não havia cama, não havia porta, não havia paredes, nem mesmo a sombra do homem sem nome. Só ela. Ela e o chão que sustentava todo o seu peso; ela e o suor emarenhado no seu corpo. Ela e só ela.
       Levou as mãos à cara e ficou pensativa. Os dedos longos e rectilíneos a esconderem os olhos. Abriu a boca, mas, o grito saiu surdo. Estava louca, pensou. Gritou de novo e, de novo, nada.
       Ao deixar cair a cabeça para trás esperou ouvir um som oco, mas, não. Os seus cabelos envolveram o macio de uma almofada e os seus dedos tocaram na agradável suavidade dos lençóis. Abriu os olhos e soergueu a cabeça. Lá estavam. A porta mesmo em frente, a janela ainda fechada, as paredes que a cercavam em volta e, num sobressalto, apreciou, perante a longevidade do seu olhar, os lençóis que de novo rastejavam pelo seu corpo.
       – Não!!!
       A porta do quarto abriu-se. A silhueta do homem sem nome surgiu envolta de um espanto petrificador. Dirigiu-se a ela como um louco e envolveu-a nos braços. Acariciou-lhe o cabelo e murmurou algo ao seu ouvido que soou a inexistência.
       – Não me deixes morrer.
       – Não vais morrer – Anuiu o homem. – Olha o que trouxe.
       Ela ergueu a cabeça. As lágrimas acentuavam-lhe a beleza dos olhos e ele tornou a desejá-la. Ela pegou, hesitante, na pequena caixa de cor malva envolta numa fita vermelha e, depois de a inspeccionar cuidadosamente, desfez-se da fita.
       – O que é? – Inquiriu a rapariga, sem olhar para o homem.
       – O teu sustento – Respondeu o homem, acendendo um cigarro.
       O rosto dela empalideceu quando abriu a caixa. Havia lá dentro qualquer coisa; tinha um tom cândido – branco como a neve. Ao retirar o pequeno saco do interior da caixa surgiram-lhe novamente as lágrimas aos olhos. Levou o saco aos lábios e beijou-o com veemência. Estava de novo feliz. O homem viu um sorriso alastrar-se pelo seu rosto e também ele chorou. Era um choro sem dor, incompreensível, mas, por fim, não o achou tão estranho. De qualquer dos modos, também ele tinha sentimentos e alegrou-se com essa descoberta.
       – Porque não fazes uma cura?
       De repente o olhar da rapariga tornou-se sério. Olhou o homem e disse:
       – Sou senhora absoluta da minha dor.
       – Eu sei que cada homem é juiz e, juiz exclusivo daquilo que honestamente pode suportar. Mas tu? Tu já perdeste a noção de lucidez.
       – Porque me tormentas?
       – Não. Apenas estou a suplicar que sejas suficientemente forte.
       – Não posso. E mesmo que pudesse não deixaria. Talvez, não sei.
       – Vês? Andas perdida, já não tens noção de nada – Replicou num tom incrédulo.
       – Por favor – Ela levou as mãos à cabeça sem nunca largar o pequeno saco do pó branco. Fechou os olhos. Queria esquecer aquele homem, queria esquecer a droga que suportava nas mãos, o peso desesperante que lhe assolava o corpo, queria morrer. Por fim abriu os olhos. Já não eram aquelas pupilas pequeninas e incolores que brilhavam na penumbra do quarto, eram antes, duas esferas rubras que faiscavam na noite.
       – Vivo numa angústia muito grande. É desleal que digas que compreendas a minha dor. Sou uma desgraçada, uma louca, se quiseres.
       – Não acredito que tenhas perdido a confiança em ti própria – Ele aproximou-se da janela e abriu-a. A Lua brilhava lá fora, superior a todos os homens. Não havia vento.
       – Estou cansada para discutir contigo.
       – Mas... isso é assim tão bom? – Perguntou, virando-se para ela.
       – É como tudo. É bom se quiseres, é cruel se o exigires também. É uma sensação indescritível, impensável mesmo. Apenas sei que posso fechar os olhos e ser quem quiser, existir num espaço qualquer, voluptuoso ou mesmo violento até.
       O homem abanou a cabeça, cerrou os lábios e deixou o quarto. Antes de fechar a porta, voltou-se para ela e franziu a testa ao falar:
       – Debaixo da cama tens tudo o que necessitas para dissolveres o pó.
       O homem tornou a abanar a cabeça e foi-se embora. Ela seguiu-o com o olhar até a escuridão da outra sala o devorar.
       Ainda num último esforço, ela esboçou um sorriso e levantou a mão, agradecendo aquela dádiva:
       – Obrigado...










4

       O homem levantou a cabeça, abriu os olhos e pestanejou. Tirou uma pequena garrafa achatada do bolso do casaco e, ao abri-la, discerniu, a seu lado, uma mulher de ombros encolhidos e muito pálida.
       – Toma. Isto vai dar-te genica.
       Ela pegou na garrafa e bebeu um golo... e, engasgou-se, quando o líquido lhe começou a arder na boca. Tinha os olhos lacrimejantes.
       O homem riu-se.
       – Como te sentes?
       – Melhor.
       – Tens toda a razão, míuda. De facto, é-me impossível compreender a tua dor.
       Ela pôs o braço por cima do seu ombro, dando-lhe uma palmada amigável.
       – Mas, se isso te pôe bem disposta... – Acrescentou com voz rouca.
       Ela deu outra golada e bebeu tudo sem se engasgar, depois disse:
       – Obrigado – E devolveu a garrafa.
       O homem ergueu-se do cadeirão e aproximou-se duma parede. Era enorme. Estava pintada com laivos de brancura e, no meio, jazia um quadro. Ao compreender que ele olhava fixamente para o quadro, a rapariga analisou-o de alto a baixo. Era a fotografia de uma rapariga de olhar angelical que focava, num espaço muito diminuto, a imagem expressiva de Nossa Senhora de Fátima.
       Ele inclinou a cabeça com rigidez. Ela encostou-se ao cadeirão, enquanto a expressão do homem se tornava mais taciturna.
       Ela levantou-se e aproximou-se, lentamente, dele. Pôs-lhe as mãos atrás das costas e perguntou num tom afável:
       – Quem é?
       Ele virou-se. Olhou-a bem fundo nos olhos e lamentou-se da sua dor. Pousou novamente o olhar na imagem soerguida na parede e antes de falar cerrou os punhos.
       – É minha irmã. Chama-se Guida. Começou a ingerir drogas aos dezoito anos. Deixou de trabalhar e começou a frequentar bares e casas de jogo, em busca dos míseros tostões para consumir o seu vício. Hoje... – Hesitou, tentando afastar o pensamento para coisas mais agradáveis. Mas, havia uma determinação obsessiva à entrada da mente que o obrigava, desmesuradamente, a debruçar-se sobre aquele problema. – Hoje passa as noites no bar de um amigo, como sendo um fantoche na mão de todos, só para ganhar para o vício, para aquilo que realmente a faz viver, esquecida na música alegre mas, deturpada, que lhe enche as veias.
       Calou-se.
       Afastou o pensamento e meteu as mãos nos bolsos. Por momentos, pensou, ressentido, se realmente não teria provocado alguma preocupação no rosto da rapariga. Baixou o olhar e encontrou aqueles olhos meigos, muito brancos, a olhar para si. Não parecia impressionada, nem tão pouco exprimia sinais de serenidade.
       – Presumo então que sentiste necessidade de me dar guarida, não?
       Ele riu sem ironia ou condescendência.
       – Sim, acho que sim.
       Ela afagou a cabeça no seu peito sem proferir uma palavra, compreendendo repentinamente o que ela significava para aquele homem.
       – Não quero que venhas a ter o mesmo destino, Carla – Os olhos sombrios do homem voltaram-se para ela, fixando as suas pupilas perturbadas.
       – Como sabes o meu nome?
       – Enquanto dormias tomei a liberdade de vasculhar as tuas roupas. Perdoa-me se fui incorrecto.
       – Não... não importa...
       – Agora tenho de sair – Disse, afastando-se dela. – Prometo não voltar tarde.
       Ela comprimiu os lábios e voltou-se, um pouco contrariada. Os seus olhos dirigiram-se inexpressivamente para a rapariga do quadro e, chegou mesmo, a recear que tudo aquilo fosse verdade.










5

       A noite caía agora como uma voluptuosidade soturna, silenciosa.
       O ar rarefeito, contudo, não conseguia aturdir os sentidos do homem de olhos cavados, devido à enorme fixação por aquela rapariga. Sabia-se arrastado, deliciosamente arrastado.
       Antes de penetrar numa rua que desembocava num jardim em estado decadente, ornamentado com árvores mutiladas pelas décadas e de diminutos bancos de madeira, confundidos com uma folheagem rasteira quase inexistente, o homem, de cigarro pendente nos lábios, ajeitou-se no sobretudo.
       Pelo caminho, ao atravessar a estrada, chegou-lhe ao ouvido o som duma admirável partitura e deteve-se um instante, invadido pelo cenário íntimo que ensombrava do corpo de Carla: o seu cabelo negro roçando os seios nus, o seu olhar desvairado, intrépido mesmo e aquela dor enorme – o amparo da sua vida e, ao mesmo tempo, o estímulo forçoso para a morte. Morte? Foi nesse preciso instante que se apercebeu que devia estimar ainda com mais ternura aquela rapariga; aquele corpo; aqueles lábios; aquela vontade indolente que sentia para com a vida.
       Gostava dela, era verdade, não simplesmente como mulher, mas, por causa da sua individualidade, no seu desinteresse apático pela vida. Era uma rapariga realmente estranha, indefesa, de ideias indefinidas, mas, onde por vezes, afluiam raios de alguma instrução. Pelo menos ele assim pensava.
       À medida que descia a rua o ar tornava-se mais pesado. A Lua – à ilharga – parecia ilimitada, regozijando-se com a dor dos mortais, impune aos seus âmbiguos destinos. Olhou-a demoradamente, como se os seus olhos vissem pela primeira vez o explendor intocável beijar-lhe o rosto. De facto, o homem humilde não passava de um ser inteligente repleto de monstruosas implicações, mas, até o ser mais engrandecido, apercebe-se que a Lua descobre por vezes semblantes petrificadores.
       Baixou o olhar e afastou-se daquele lugar. Era um facto que a Lua o desorientava um pouco, levando-o a vaguear por caminhos desnorteados, absorvido pela sua incomensurável magnitude. Sim, pelo menos admitia que se sentia fascinado pelo seu brilho. Ela – a Lua – era como se fosse uma mulher anónima, que o transportava para estados de espírito diversificados; ora de total desfalecimento, ora de total voluptuosidade. Sabia que era lúgubre pensar naqueles termos, mas, que importava? Era ele o dono das suas blasfemas ideias.
       Apesar de todos aqueles pensamentos conseguiu afastar a imagem da sua Lua-amante e, continuou, cabisbaixo, a descer a rua em direcção ao jardim. Ao virar uma esquina ouviu um ruido surdo atrás de si, seguido da chiadeira de um carro a passar pela rua.
       Ao voltar-se, os seus olhos encontraram a face carrancuda de um homem obeso que segurava nas mãos uma pequena lâmina afiada, imaculadamente brilhante. Não teve tempo de discernir a expressão do outro interlocutor, senão o fulminante peso dos seus dedos estatelarem-se no rosto. O corpo do homem de olhos cavados tombou no chão, soltando um grito lancinante.
       Os olhos brilhantes do homem obeso cintilaram no escuro. Baixou a cabeça e agarrando nos cabelos do assolado, murmurou numa voz gutural:
       – Uma menina nova e não dizias nada, Miguel?
       – Não é o que vocês pensam – Praguejou o homem, estendido no chão. – É uma amiga, nada mais.
       – Ouviste o que o cabrão disse, Xana?
       – Chega de parvoíces. Ajuda-o a levantar-se.
       – Vamos lá queridinho, levanta-te! – Berrou o gordo num riso sarcástico.
       – Está uma bela noite para morrer, não e assim, Miguel?
       O homem a quem chamavam de Miguel não respondeu. Ficou imóvel, de olhar circunspecto, perscrutando os ruidos da noite.
       – Olá, Xana! – Saudou, por fim.
       – Sabes uma coisa, Miguel? – Disse a rapariga. – Ainda ontem sonhei contigo. Imaginei a tua língua lambosando a minha boca.
       – Que raio de sonho alucinado – Comentou o gordo.
       – Cala-te, gordo! – Sugeriu a rapariga.
       – Que querem de mim? – Inquiriu o homem, contorcendo-se de dores.
       – De ti? Nada, meu querido – A voz da rapariga parecia-se agora com um grito bruxuleante. – Queremos é a rapariga a quem estás a dar guarida.
       – Não!
       – Não? – Os olhos da rapariga tornaram-se brilhantes, tenebrosos. – Tenho a horrível impressão que aqui o nosso amigo gordo vai ter que tomar medidas drásticas. Mas, nós não queremos isso, pois não, Miguel?
       O corpo de Miguel ficou inerte, de olhar esgazeado, meditando nas palavras da rapariga.
       – Não! – Insistiu Miguel.
       O homem gordo lançou um grito estridente e começou a rir, como um velho louco.
       – Sabes que o gordo está com uma vontade enorme para comer a tua querida mana, Miguel? – Disse a rapariga com um sorriso nos lábios.
       Miguel sentiu um vento frio a soprar de dentro de si, como um sussurro infernal que, ritmicamente, se impregnava na escuridão da noite. Maldita! Como a odiava. Desviou os olhos para o chão e só pensou em ter força, a mínima que fosse, para a matar, para fazer crer a todos aqueles que o desrespeitavam que ainda existia, que, afinal, ainda ali estava – vivo, atento.
       Notou nesse momento, lá no fundo da consciência, que era impossível. Não podia fazer nada. Era como se tivesse as mãos presas. A existência da irmã é que fazia com que ele desejasse viver, não podia, por isso, deixar que ela sucumbisse, só por causa duma insensata atitude sua.
       Ergueu-se, por fim, de olhos brilhantes e, teve calma bastante para se aproximar de Xana. Não opondo resistência, a sua voz ecoou estranha e ameaçadora:
       – Como quiseres.
       – Que alívio – Anuiu a rapariga. – Era desgostoso ter que te matar com as minhas próprias mãos.
       Miguel tornou a prostar os olhos no chão. Estava abatido, desalentado. Sentindo-se humilhado, fechou os olhos e lamentou-se por existir.










6

       O dia principiara.
       A luz fresca da manhã penetrava, sadia, pela janela entreaberta do quarto.
       Miguel abriu os olhos e foi assolado por uma impressão horrível. Sentiu uma dor estranha diluir-se nas entranhas e teve vontade de vomitar. Dobrou o corpo e ficou a contorcer-se de dores em cima da cama. A carne parecia estar flácida e os seus dedos perdiam-se, sem nexo, pelo corpo, numa ânsia incerta. Por fim, com ar triunfal, descontraiu-se e recostou a cabeça na almofada. Não havia abominações. O seu corpo continuava são e aquela impressão horrível que o debelava, arrastava agora umas terríveis tonturas. Tentou arrastar-se para fora da cama, mas, a verdade é que o corpo não obedecia às ordens misteriosas do cérebro. Numa derradeira vontade tentou ainda, numa sensação de enjoo, gritar, mas, não o conseguiu.
       Mas, em breve tudo isso passou.
       O suor escorria-lhe face abaixo numa torrente de calafrios e o corpo continuava – apesar de são – empestado de uma debilidade que ele mesmo não compreendia. Apesar das tonturas se terem esfumado, havia uma atmosfera perniciosa que, incompreensivelmente, se evidenciava do seu corpo. Tentou aclarar as ideias mas foi-lhe impossível porque, num ímpeto, a porta do quarto abriu-se, envaidecida pelo semblante intimidado de Xana.
       Miguel, com certa dificuldade, dominado por uma certa neblina que lhe cerrava os olhos, ficou pálido. Não foi pelo facto de ela estar ali, no seu quarto, mas, sim, por estar ali sozinha, desamparada do seu escabroso amigo gordo.
       – Sabes, meu caro Miguel – Disse ela, ainda na soleira da porta, – tu sempre foste uma dessas criaturas que me perturbou. Porém, a verdade é que em redor dessa tua figura intensa, enigmática, eu sempre senti admiração.
       Ela sentou-se, sem ruido, na borda da cama e estendeu as mãos pelos lençóis macios que cobriam o corpo do homem. Até ele chegou um aroma denso a sensualidade que emanava de toda a carne da rapariga.
       – Não compreendo – Murmurou Miguel. – Que pretendes de mim?
       Ela não respondeu, limitou-se a abrir o único botão da jaqueta de seda, deixando-lhe os seios livres, oscilantes. Gatinhou, radiosamente, pela cama até os seus delgados dedos tocarem as pernas cobertas de Miguel. Este estremeceu e começou a sentir uma dor vibrar dentro de si, mas, no entanto, não praguejou. Ficou, de olhar excitado, a observar aquela atitude perturbadora de Xana, sem deixar de fixar os seus seios provocantes, arrebitados, adolescentes. Foi, por momentos, assolado por um desejo brutal de morder aquele corpo radioso que, inverosímel ao seu olhar, continuava a avançar para si.
       – Chega, Xana!
       – Ama-me, Miguel – Pediu ela.
       – Mas... estás bêbada.
       No olhar da rapariga surgiu um brilho esbatido que fez Miguel estremecer e todo o seu corpo se contorceu de espasmos. Ela parou, silenciosa, perscrutando as dores do homem, indiferente à sua aflição.
       – Que se passa comigo? Não compreendo, estas dores...
       Xana lançou uma risada que soou mais a uma súplica do que aquilo que ela queria que suasse. Depois, calou-se. Passou os dedos pelos lábios e ergueu-se da cama, sem se preocupar em cobrir os seios ou o que quer que fosse do corpo.
       – Tenho uma confissão a fazer-te – Disse a rapariga, pegando numa mala que estava no chão, junto da cama. – Quero que me perdoes por todo o mal que te fiz.
       – Hem? – Grunhiu, admirado.
       – Não quero que fiques com ideias erradas a meu respeito. Eu sempre tentei evidenciar a minha paixão por ti, porém, nunca percebeste. Nem mesmo quando o francês nos obrigou a beijarmo-nos naquela festa, lembras-te?
       Lembrava-se mas não queria recordar.
       Ela voltou-se, fitando-o nos olhos, com os seios nus, cintilantes, duma agudeza áurea.
       – Não sabia... – Murmurou Miguel, com um sorriso inquiridor.
       – Bem, mas isso são águas passadas. No entanto... não queria que deixasses de saber.
       – Houve, Xana...
       – Não, ouve tu – Retorquiu ela, com olhar desesperado e um grito estridente. – Ontem à noite a tua irmã... morreu.
       Os olhos impávidos de Miguel destacaram-se de toda a sua face, envoltos, agora, numa dor angustiada, quando ouviu aquelas palavras, aquelas hediondas palavras profanadas por aqueles lábios serpenteantes.
       – Como foi isso?
       – Uma overdose.
       Miguel cerrou os olhos, separando-se do seu próprio corpo, da presença perversa de Xana, do seu olhar cintilante, dos seus lábios subtis, dos seus seios dourados e desvendou-se por uma áurea de labaredas que rasgavam a sua alma, o seu ínfimo desejo de viver.
       Sempre se apoderara dele um abismo possesso que repelia a presença dela, mesmo o seu corpo até, mas, agora, a sua carne ardia prodigiosamente e sentia uma vontade, quase horrenda, em erguer-se sobre ela e imaginar volúpias estranhas naquele corpo flácido, que se esvaía na sua própria paixão.
       Quando abriu os olhos, Miguel deparou-se com uma imagem horrenda: Xana segurava numa das mãos uma lâmina afiada e, na outra, a mala, agora aberta. Tinha as palpebras repletas de lágrimas e olhava para ele, silenciosa.
       – O francês abandonou-me, Miguel.
       – Como assim?
       – Foi ele, aquele maldito, quem matou a tua irmã. E não fosse a minha arrojada insistência tambem tu estarias agora a dormir sabe-se lá onde.
       – O quê? – Os olhos de Miguel tornaram-se cor de fogo, possessos de uma repugnante vontade de gritar.
       – Ontem – começou ela, – quando viemos aqui buscar a rapariga, o francês fez questão de aparecer e obrigou-te a tomar uma série de comprimidos, depois, quando partimos, vi o meu futuro esfumar-se. Percebi pelo olhar do francês que a rapariga o deliciava e tive muito medo. Quando chegámos à boite do francês ele injectou uma dose suficientemente basta para que Guida fosse desta para melhor e, se isso não bastasse, humilhou-me diante de todos, ordenando que me fosse embora, porque já não necessitava dos meus serviços. Abandonou-me aquele maldito filho da puta. Estou perdida Miguel...
       – Não admira que te tenhas embriagado – Comentou Miguel, de olhar perplexo.
       – Porque deixaste o nosso grupo, Miguel? Podíamos estar agora todos juntos, manifestando as nossas delícias, num deleite inimaginável.
       Miguel tornou a cerrar os olhos e recordou-se das pequenas pupilas incolores de Carla, daquele tom branco expelindo dos seus olhos, quando a encontrou naquela noite, no cais das colunas.
       – Tens de vingar a morte da tua irmã, Miguel. Mata-o com esta mesma faca – Apontou para a lâmina que os seus dedos seguravam, trémulos.
       – Ele vai usar a rapariga do mesmo modo que usou estes anos o teu corpo, Xana – Disse ele, reabrindo os olhos.
       – Tal como usou o da tua querida mana, não esqueças isso, Miguel.
       Foi então que num ímpeto de vontade, bem decidido, Miguel agarrou na faca e com toda a lucidez que emanava do seu olhar, murmurou:
       – Não há mais nada que valha a pena continuar a viver.
       – Por que Diabo dizes isso? Mata-o antes que seja tarde, antes que ele nos faça suplicar pela nossa existência.
       – Estás possessa, mulher – Lamentou-se Miguel, segurando firmemente a faca.
       Ela virou-se, constrangida e, por momentos, ficou, de olhar perplexo, a perscrutar a luz morna da manhã que penetrava pela janela, incendiando todo o seu corpo, todo o seu corpo embriagado numa possessão demoníaca.
       – Quero ficar contigo, Miguel – Disse ela, sem se virar. – Não importa que tenhas desprezo por aquilo que sou. Não importa que sejamos ambos diferentes.
       Calou-se.
       Realmente não importava. Ela apenas necessitava agora de um amparo, de alguém que a fizesse sentir que nada estava perdido, que podia esquecer as agonias por que passara; de alguem que a fizesse esquecer quem ela era. Sentia-se suja por dentro; já não se considerava um ser humano, uma mulher, ciente dos seus actos, mas sim, um defunto à espera que a terra cubra o seu corpo abandonado ao seu castigo.
       – Tenho pena daquela rapariga, Miguel – Lastimou-se ela. – Tenho receio das tenebrosas acções que poderá vir a provocar. Eu que o diga...
       Tornou-se a calar e num movimento voluptuoso, virou-se, para enfrentar o rosto silencioso de Miguel.
       – Não... – Murmurou, num grito surdo, o qual a fez empalidecer.
       De olhos cobertos em lágrimas ela ficou, padecida de uma tristeza desgostosa, a olhar para o corpo de Miguel, o qual jazia na cama, com a faca espetada na nudez da sua carne. Como dissera, nada mais havia, pela qual, valesse a pena continuar vivo.

Cova da Piedade
Fevereiro
1992
 

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