1
Quando fechei os olhos, na ânsia de repousar as pálpebras cansadas do dia, pús-me a escutar os murmúrios inquietos dos insectos a treparem as paredes da minha cela. Além dos buracos que adornavam as paredes, onde jorravam colossais cristas retalhadas de merda, numa insolência atrevida de bêbedo, só o teu incansável retrato não me aborrecia. E pús-me a imaginar o contorno dos teus lábios sobre os meus, geometricamente harmónicos, enquanto ignoravas a viagem dos meus dedos pelos desfiladeiros dos teus seios, grotescamente carcomidos pelas intempéries.
Depois os meus dedos percorreram, ao de leve, as curvas das tuas ancas e senti uns pêlos encrespados, apoderarem-se-me das unhas enregeladas de um frio que não existia. Quando os teus dentes me cravaram a carne sem vigor do pescoço, senti-me morrer e um frio fantasticamente gélido tomou posse de todos os meus nervos. Ao abrir os olhos, apavorado, fiquei incapaz de mover os braços e nas bocas cavernosas dos meus olhos havia um eco nebuloso de impressões desconcertantes.
Após uma ascenção lenta ao reino dos vivos, senti o uivo do vento para lá das grades da minha cela e sustive o olhar nas feições repulsivas do teu retrato. Ergui-me da cama assustado e, quando a voz orgulhosa do vento se juntou ao ronco dos motores, para lá das paredes da minha cela, vi, com grande espanto, os traços loucos dos teus lábios transfigurarem-se na combinação agradável de carne que a minha língua conhecia.
Mas o que mais me fascinou e perturbou foi ver as esferas cintilantes dos teus olhos, que me fixavam numa relutância de ódio, erubescerem-se na cor do sangue e depois esboçarem aquele sorriso alegre que muitas vezes me havia sossegado.
Quando me preparava para tocar no retrato, ouvi gritarem pelo meu nome. E ao voltar-me, distingui a figura esborratada do guarda que procurava, em movimentos atarefados, a chave da minha cela. A seu lado, uma mulher idosa soltou um riso seco.
Merda!, berrou o guarda com um ar de superioridade quando encontrou a chave. Pegou num candeeiro com uma das mãos e abríu as grades do meu mundo. Foi então que comecei a aperceber-me do barulho que as ratazanas faziam. E quando as chamas do lume projectaram estranhas sombras através das paredes da cela, pude ver, sem no entanto lançar pragas, as malditas das ratazanas devorarem, numa voluptuosa tranquilidade, os pedaços incomestíveis da tua existência, querida Paula.
E quando os meus olhos se perderam pelo corpo da velha, esta irrompeu em gargalhadas obscenas, agarrando a barriga com as mãos. Estaquei os movimentos e fiquei a observá-la, a cuspir sangue através das cópias mesquinhas que eram os lábios.
– Vamos a entrar, velha de merda! – Ordenou o guarda, entre o chinfrim ferrugento das chaves, a debaterem-se em convulsões na presilha das calças.
Ao olhar para mim, exagerando num sorriso pálido de noitadas, o guarda desatou às gargalhadas, não dando importância ao barulho das ratazanas, não dando importância à velha que, sentada na minha cama, apalpava com os dedos o peito canceroso de uma vagina inútil.
– Deus nos valha! – Disse o guarda. – Um bandalho como tu só merece a cadeira eléctrica. Mas não tem importância, porque hás-de voltar. Todos eles voltam. Só preciso de esperar. Mas toma cuidado bandalho, porque quem regressa jamais sai vivo daqui.
A gargalhada do guarda fêz estremecer a velha, quase absorvida no seu próprio regozijo de instantes.
E quando transpûs a soleira desnorteada daquilo que era o meu mundo, tornei a olhar para a velha, agora a coçar as pernas nuas e esperei que ela explodisse em subtis palavrões de puta desgrenhada. Antes de voltar costas àquele monte de carne enxuta, com as mamas a rebentarem pelo decote porco do vestido, olhei de soslaio para os vincos das rugas da face do guarda. Esperei pelo sorriso amarelo dos dentes e afastei-me a pensar no teu nome, querida Paula.
Ouvi a velha berrar, mas não consegui compreender o que dizia; nem me importava. Não me importava com nada. Só queria era chegar vivo a casa.
2
Quase com um arrepio de pavor, virei-me devagar e fui incapaz de agir ou de me mexer. Atrás de mim, deste corpo traiçoeiro atacado de paralisia, estendia-se a porta da minha casa, da nossa casa, onde os fantasmas duravam há já cinco anos, incólumes de inquietações.
Fiquei imóvel durante um período de tempo que me pareceu interminável, com os olhos arregalados, a perscrutar o rugido do vento a bater- -me no rosto, como avassaladoras chicotadas de um carrasco demente. Ao distinguir as badaladas da meia-noite nos enormes carrilhões do templo dos cristãos, virei-me e enfrentei, com uma espécie de fascínio, cada uma das tábuas que formava a compleição ressequida daquela porta.
E quando os meus dedos, resfolegados em espasmos de irritabilidade, rodaram as incrustações da maçaneta, o estrépito da última badalada soou pela noite fora, como o uivo perturbante dos lobos famintos.
E quando abri a porta esperei ver-te, lá, na enorme cadeira de carvalho cinzelado, com um sorriso de triunfo no canto dos lábios, a revolver as pérolas adúlteras das mãos. Mas, na enorme cadeira de carvalho cinzelado, onde os nossos corpos se esforçaram, por vezes, em proezas mesquinhas de crianças famintas, só encontrei o espectro do teu cadáver. E vi, com estes olhos que a terra há-de comer, as ourelas dos teus cabelos negros tombarem no chão empedernido, ao ritmo apressado do vento, agora mais lamuriento, a soprar lá fora, de encontro aos vidros das janelas. E depois vi a tua pele rebentar sem esforço, expondo os músculos e a gordura aos vermes que sitiavam com impertinência o flagelo da tua carne.
Passei as mãos pelos olhos, surpreendido e, depois, começou a apoderar-se de mim um medo enorme. Quando as minhas retinas assediaram de novo a cadeira, a nossa cadeira, deixei de te ver, querida Paula. Desejei estar contigo, sete palmos abaixo da terra, para brincar na floresta esquartejada dos nossos sonhos.
Para lá da enorme cadeira de carvalho cinzelado, discerni o recorte permanente da nossa cama, entre as chamas minuciosas dos candeeiros apagados. E ao sentar-me nos lençóis desfeitos, senti a fragância embriagante da tua vagina e percebi, na harmonia distinta do vento, o choro elegante da tua voz, a suplicar-me lágrimas, a suplicar-me por coisas do passado.
Lá fora, no tumulto estouvado do vento, algumas luzes incandescentes de janelas perdidas começavam a dissipar-se, embebidas no esforço do cansaço, alheias ao meu desespero, alheias à aflição do estupor dos meus pensamentos. E tu, minha querida bandeira extravagante, de seios sólidos desfraldados ao sopro da minha respiração, sem apareceres com aquele sorriso alegre que me sossega a alma.
Agora, o único conforto suportável que me restava era chorar, apesar de saber que a minha vida não voltaria a ser igual. Mas sabia que, um dia, mais tarde, aprenderia a viver com a tua ausência, nem que isso me levasse às portas do inferno.
3
Àquela hora ainda as mesas do bar mostravam um ar desolado, onde as pequenas linhas de pó segredavam confidências indiscretas. Não fossem os movimentos graciosos da bailarina no centro da sala, onde o ressoar dos seus pés se confundia com o grasnar da música de fundo, dir-se-ia que se podia morrer na paz dos anjos. De facto, aquele bar era o local ideal para morrer. Nem mesmo os sorrisos de esguelha do barman poderiam acordar uma pessoa resfolegada no deleite ardente da bebida, à espera, numa ansiedade perplexa, a perpetuidade da sua morte. Bastava fechar os olhos e deixar-se embriagar pelo entorpecimento do corpo. E era precisamente o que estava a fazer: a imortalizar a flacidez da minha carne, a debilitar a perseverança da minha culpa.
Quando ergui o olhar da garrafa de Tequilla notei, junto ao balcão comprido de madeira branca, em duas mulheres num regabofe de beijos perversos, a uivarem insultos cobardes para um homem com um sorriso sem brilho no canto dos lábios. E os meus olhos perderam-se, num riso adolescente, pelas curvas inebriantes das pernas das mulheres, a dançarem encontrões serpenteantes de putas proletárias.
O homem pestanejou, surpreendido, e torceu a boca num sorriso nervoso. Depois acenou com a cabeça e afastou-se, enfadado pela dança lasciva daquelas línguas devassas.
Ao voltar-me, para encarar os passos murmurantes da bailarina, que fazia desfilar entre os cadáveres aborrecidos das mesas, a maravilha intraduzivel dos seus gestos, agarrei distraidamente em duas limas e comi-as de uma só vez. Embora virada de frente para o balcão podia ver os seus olhos fitarem o infinito e quão belos eles eram, minha querida Paula.
Ao aproximar-me do balcão, alheio ao gargalhar liquescente das mulheres, inquiri ao barman:
– Quem é a míuda?
– Quem? A bailarina?
– Sim, estúpido.
– Vê lá como falas, pá – Disse o barman, fitando-me com uns olhos insondáveis.
Desculpei-me com um aceno desconcertado.
– Porque queres saber? – Indagou o barman, num olhar ironicamente divertido. – Se estás a pensar em alguma coisa, amigo, obedece às leis da casa.
– Não, nada – Garanti, virando-me para enfrentar a beleza felina dos movimentos teimosos da bailarina.
Depois, com o coração a pulsar de frio, endireitei-me no sobretudo, instalei as mãos nos bolsos do mesmo e antes de acenar ao barman um adeus de desconsolo, tornei a postar os olhos naquele corpo suado de carne tenra, onde as tuas retinas, minha querida, sorriam para mim.
Merda! Gritei, baixando a cabeça, com receio de te olhar, com receio de encarar a tua fúria, minha querida, com receio dos teus passos de dança maldita, a castigarem, impiedosamente, a carne flácida dos meus ouvidos. E quando o peso esquecido do teu corpo parou à minha frente, como um fantasma alienado, cuspindo graças sem melodia, deixei de respirar. Mas tu, embebida em gestos mentecaptos de bailarina mercenária, metralhavas-me com uns olhos que desconhecia.
Merda! Isto não é verdade! E tornei a repetir as mesmas palavras para a expressão ausente do barman, a limpar a gordura dos copos, e depois, para o estrépito irónico das lésbicas, abraçadas num beijo cruento, onde o sangue vermelho se esvaía dos lábios húmidos, numa torrente de desleixo sem sorte. E eu, a estremecer de terror, só pensava em tornar a cingir os dedos no fresco doce da tua pele, beijar ao de leve os teus lábios rubros e apertar, sem muita insistência, a carne tranquila do teu pescoço. Mas foste tu, minha querida, que neste frenesim de calafrios, me beijaste com a agudeza dos teus dentes de marfim, neste meu pescoço, agora já habituado aos teus beijos de afecto.
Depois, desalentado, o meu corpo perdeu a estabilidade e os nervos cederam sem cerimónias. Senti o frio do soalho por baixo da minha cara quando caí, agarrado à superfície escorregadia do balcão comprido de madeira branca. E antes de fechar os olhos, vi as duas mulheres sorrirem para mim, naquela afeição repugnante de quem se encanta com as desgraças dos outros.
4
Foram as bátegas intensas de uma luz qualquer que me acordaram. Não me ergui, ficando deitado sobre aquilo que me parecia uma cama, a escutar os ecos das paredes avermelhadas, com a claridade a flagelar-me a vista. Tentei fechar os olhos para esconder as retinas daquela luz adúltera que, afinal, rompia por todo o corpo, flagelando-me não só as pupilas, como toda a minha carne. Era como se o meu corpo ardesse ao contacto legítimo da luz.
Perturbado com aquela claridade ergui-me da cama e, procurei por todos os cantos do quarto, um sítio para me esconder. Mas o quarto, inexoravelmente pequeno, não podia oferecer nenhum refúgio e nesse momento apoderou-se de mim uma imensa fome. Senti os dentes crescerem-me na boca, como desmedidas garras malignas, ansiando sangue, prestes a soltarem-se da boca. E a luz que me penetrava na carne, fazia-me ansiar um desejo incrivel de morder, de enterrar os dentes nesse teu pescoço frágil, minha querida Paula.
E soube, quando os dentes me rasgaram os lábios e despontaram da boca, numa estimulante agudeza, que não podia deixar de saciar a minha fome.
Foi ainda com o desejo de morder o teu pescoço, a crescer dentro de mim, que pude discernir os semblantes petrificados das mulheres, a observarem-me, por detrás da porta do quarto.
– Tirem esta maldita luz de cima de mim, caraças! – Gritei, sem saber ao certo, se o meu coração ainda pulsava.
Ao abrir os olhos, ainda incapaz de saber se estava vivo, senti as lágrimas frias roçarem-me a pele e desejei ter-te a meu lado, minha querida. Não me importava que estivesses morta, não me importava que o teu corpo cheirasse à fragância terna dos cadáveres decompostos, mas se ao menos estivesses aqui, querida Paula, se ao menos pudesses escutar as coisas que tenho para contar, saberia que existias e que poderia contar com a tua paixão. Mas assim, já não me restava só chorar pela tua ausência, querida Paula.
E ao abrir os olhos deixei de sentir o corpo a arder, resguardado pela sombra que se estendia ao meu redor. E pude ver os teus olhos brilharem para mim, como duas pérolas ofuscantes, perdidas nas trevas e agradeci aos céus quando senti o contorno dos teus lábios sob os meus.
E ao abrir os olhos discerni os traços delgados das mulheres da noite anterior, pasmadas com as minhas degeneradas crises, a roerem as unhas, por detrás de uns dentes imaculadamente brancos.
– Já se sente melhor?
Acenei afirmativamente com a cabeça e, nesse momento, quando a mulher de olhos claros me passou um pano molhado pela cara, senti um peso descomunal nas pálpebras. Os meus olhos tornaram-se a fechar e apercebi-me, nesse instante, quão frio estava o chão onde o meu corpo jazia, como um esqueleto pesado, perdido na vigília estranha daquelas mulheres desconhecidas. Ou não seria o meu corpo que teria deixado de respirar?
Até mim chegaram murmúrios de vozes indistintas, que me entravam nos ouvidos como meigos beijos de desassossego e, uma vez mais, as retinas dos meus olhos se abriram para enfrentar a carnadura do teu cadáver.
– O que se passa consigo?
– Deixem-me dormir, por favor. Só preciso de dormir um pouco, nada mais, nada mais...
E o meu coração parecia ter parado. Os movimentos dos meus lábios eram agora gestos indefinidos de um moribundo sem caixão, que desejava descansar no teu regaço, o peso desmedido dos ossos descarnados da caveira. E desejei ser sepultado algures a teu lado, perto do odor infausto do teu sangue, das feridas contaminadas dos teus olhos e dos pedaços flagelados dos teus lábios, a berrarem-me num expressivo silvo de ódio, o quanto me querias.
5
Quando, ao fim de um tempo incerto de adormecimento, os meus olhos mergulharam numa nesga de luz, a cintilar nas retinas daquelas duas damas de companhia, a sugerirem mais duas desajeitadas ninfas gentias do que aquilo que eram, dirigi-lhes um sorriso forçado, sem no entanto compreender o que estava ali a fazer.
– Obrigado pela vossa simpatia – Disse-lhes, erguendo-me da cama.
– Estávamos a ver que nunca mais acordavas – Disse a mulher de olhos claros.
– Desculpem, mas nada posso fazer.
– É muito esquisito que pessoas vulgares, como nós, consigam dormir assim tanto tempo. – Afirmou a outra, com uma visivel réstea de medo a pairar nos olhos.
Nada proferi àquela bárbara insinuação da mulher, limitando-me a olhá-las, a perscrutar através do tecido fino das camisas, o bater desenfreado dos seus corações. E agora conseguia ver o quão parecidas elas eram: o mesmo contorno desajeitado dos lábios, a brilharem o baton garrido dos ciganos das feiras; o mesmo sorriso perverso de putas de bairro, adictas às injustiças dos chulos e ao olhar de esguelha de Antero de Quental, a fixar o infinito de um Tejo imaginário, nas notas viciadas daquele jogo de violência; os mesmos peitos vigorosos a roçarem o tecido invejável dos vestidos da noite, a soltarem suspiros de afagos aos desnorteados, pela abertura breve dos decotes sumptuosos; as mesmas pernas desfeitas no conforto ignóbil dos chacais pedantes, entre o riso histérico do álcool assassino e o encanto ilimitado das notas de cinco mil, a cairem com subtileza, nas rendas perfumadas dos soutiens baratos. Até os cabelos, longos e desembaraçados, a escorregarem pelos ombros, numa abatida postura de cansaço, expeliam o brilho semelhante ao da Lua cheia, nas noites festivas de alegria morta.
Mas eram os olhos que as diferenciavam. Eram os desenhos irregulares que as suas pupilas irradiavam que as fazia diferenciar uma da outra. Não admirava que as detestasses, querida Paula. As cores eram estranhamente desbotadas, pálidas, mas diferentes; impuras, quase revoltantes, mas diferentes. Em algumas das vezes pareciam-se com os teus, quase tão revoltantes como os teus.
– Não me sinto como uma pessoa vulgar, ouviram? – Disse, aproximando-me da janela do quarto.
– Receio que isso estrague seriamente a nossa amizade – Murmurou a mulher dos olhos escuros.
– Amizade? – Grunhi, irritado.
– Não gosto nada disto – Disse a outra sem me olhar.
– Agora é noite e só o fantasma da minha amada me pode salvar.
– O que estás a dizer? – Inquiríu a mulher dos olhos escuros.
– É este fogo que me queima por dentro que faz aumentar esta minha sede...
E eu sabia que tu não vinhas hoje, sabia que já não me querias, que o tremor dos teus lábios já estavam fartos do meu sangue. Sabia também que sem ti não poderia sobreviver, sem a pressão dos teus dentes sobre a minha carne, não poderia rever a luz do amanhecer.
E quando cheguei à janela, discerni o semblante desanimado dos meus olhos, a brilharem de febre, a suarem de ânsias, a gritarem por ti. Os dentes estreitaram-se nas pontas, numa intolerável visão demoníaca e senti o corpo tremer, exausto de sede, ansiando o teu corpo, ansiando o teu sangue.
– Sinto-me mal. Tenho a impressão que ela hoje não vem. É urgente partir.
– Partir? Não te podes ir embora assim – Replicou a mulher dos olhos escuros, com a voz mais parecida com a tua.
– Tenho de partir de qualquer forma – Disse, numa voz um pouco mais alta, não suportando as dores horríveis que os dentes grunhiam, não acreditando no que me estava a acontecer. – Já não aguento mais!
– Deixa-o partir – Murmurou a mulher dos olhos claros.
– Porque me trouxeram aqui? – Inquirí.
– Bem... – respondeu a mulher dos olhos escuros – queríamos diversão, nada mais. E como parecias tão estranho...
– Queriam era chupar o meu dinheiro – Gritei, desorientado.
Claro, pensei, escondendo o desassossego da minha ânsia, claro que o que as putas querem é dinheiro e, lembrei-me do sorriso inanimado de Antero de Quental, a navegar na palidez de um Tejo de ninfas esquartejadas, apedrejado pelas mãos dos pecadores. Claro que Antero de Quental já não era homem, já não sentia o peso incontido dos teus dedos e as dores que as dobras das notas fazem. Quem raio fora esse homem, que as putas tanto adoravam?
E o fogo crescia dentro de mim, enquanto Antero de Quental desaparecia na neblina intensa do Tejo enfadado, num cortejo de discípulos sem idade, a dissertarem poemas absurdos de um Cristo Salvador.
E o fogo crescia dentro de mim, enquanto lá fora, embrenhados no silêncio da escuridão, os humanos viviam as certezas das suas existências, distraídos do teu fantasma, da sede aberrativa dos meus dentes, da minha inevitável morte.
6
Atrás de mim ouvi o arfar da mulher, agora mais perto e, subitamente, o meu coração tornou-se agressivo, pulsando como um louco, enquanto que com os dentes trincava a carne dos lábios, no estrépito mais que ignorado dos velhos moribundos.
– Não te aproximes mais!
E ao sentir o peso iminente dos seus dedos, como o toque enternecedor dos teus lábios, o fogo consumiu-me o desejo de continuar a amar-te, minha querida Paula. Já não precisava mais de alimentar aquela vontade desumana de trincar a tua carne, já não precisava mais de molestar o juízo para poder viver.
E quando me virei, com o sangue a escorrer-me dos lábios e os dentes a despontarem o brilho ávido de fantasias doentias, a mulher dos olhos escuros recuou uns passos, ao mesmo tempo que lançava olhares desvairados em redor.
E eu sabia que, bem no fundo, não desejava imiscuir-me em instantes voluptuosos com aquele corpo faustoso, numa qualquer cama de dossel, a berrar estroinices de um orgasmo triunfante, apesar dos seus gestos esbugalhados de medo me darem prazer. Eu só queria, na verdade, provar o gosto ignorado do seu sangue, porque agora sabia que para prorrogar a existência nociva daquilo que me havia tornado, bastava-me nutrir desse líquido espesso que enche as veias daqueles que vivem.
– Não tenho medo de ti – Disse a mulher, num esgar aflitivo, enquanto que se agarrava à outra, no desespero inútil dos penitentes.
E qaundo as minhas mãos, semelhantes às garras dos lobos, a agitarem uns dedos dilatados, se apoderaram do pescoço da mulher, tentei, num gesto desconfortável, beijar-lhe os lábios que replicavam agoiros desinibidos.
– Larga-a, cabrão! – Gritou a mulher dos olhos claros, ao mesmo tempo que, com os punhos, me tentava agredir.
– Não devias ter dito isso – Respondi, quando, num veloz e instantâneo movimento, as minhas unhas lhe rasgaram a pele da cara.
A mulher dos olhos claros caíu no chão a disparatar berros de inconsolação, numa sinfonia maldita onde o sangue lhe salpicava o decote sumptuoso dos seios espessos. E quando ela me amaldiçoou com os seus palavrões absurdos, os meus dentes cravaram-se no pescoço irrequieto da mulher dos olhos escuros, num intenso beijo de exaltação, onde o fantasma do teu cadáver não nos perturbou, querida Paula.
7
Não me admirei da sensação de conforto que ensombrou todo o meu esqueleto, quando, num descuido voluntário, as unhas das minhas garras a abandonaram. O corpo da mulher tombou à minha frente, enquanto que as mãos me suplicavam auxílio e eu tentei não ficar nervoso, quando a cabeça se quedou de encontro às minhas pernas. Lancei uma gargalhada apressada e agarrando-a pelos cabelos, fiquei, por momentos, imóvel, a contemplar o sorriso inexpressivo daqueles olhos radiosos, num rosto que empalidecera súbitamente.
Então as lágrimas vieram-me aos olhos e toldaram-me a vista. E quando me curvei para a beijar, algo escureceu a sua face inanimada. Um súbito arrepio fez-me estremecer o corpo e quando olhei de esguelha, vi o rosto encolerizado da mulher dos olhos claros. No punho erguido tinha uma faca e confrangeu-me o coração ver a angústia e o terror libertos naqueles olhos famintos.
Corri para a janela e a mulher precipitou-se para mim, de braços erguidos, com a faca a resplandecer um abrupto semblante de terror. Quando os nossos corpos chocaram de encontro às persianas, agarrei-lhe o braço que empunhava a faca e desferi-lhe um soco nos queixos. A mulher caíu sobre a cama e ficou quieta, a perscrutar os gemidos dos meus lábios estraçalhados, enquanto me limpava do sangue impregnado nos dentes aguçados.
– Abatida pela dor? – Sussurrei, maliciosamente, ao distinguir um fio de sangue no canto dos seus lábios.
– Não te aproximes, filho da puta!
– Não voltes a chamar-me isso.
– Afasta-te, cabrão.
– Pára com essas merdas, porra.
– Vai-te foder, cabrão!
Sem hesitar desferi-lhe novo soco nos queixos que lhe fez soltar mais sangue dos lábios. Depois coloquei-me sobre o seu ventre e comecei a esbofetear-lhe ambas as faces, numa perfeita selvajaria e, enquanto o peso do meu corpo a prendia contra a cama, aventurei-me a tocar-lhe com a língua, as lágrimas opacas do rosto. E, nesse instante, apercebi-me da rijidez do meu pénis, a penar de indolência, a debater-se de excitação pelo odor delicado daquela puta de merda. E quando os meus dedos se arriscaram pelas pernas nuas da mulher, numa viagem ousada de carícias, pús-me à escuta dos seus insultos. Aproximei mais o rosto dos seus lábios e esperei por uma súplica que não chegou. Beijei-lhe o pescoço com lentidão sem que ela soltasse um grito, um gemido.
Lá fora, no estrépito apressado dos bêbados noctívagos, ressoaram algumas gargalhadas que se dissiparam no nevoeiro da noite.
Ergui-me da cama e ao apanhar a faca do chão, fiquei sossegado a olhar para o rosto pálido da mulher, que jazía em silêncio mesmo à minha frente. Por um instante pareceu-me ver os seus olhos brilharem e uma vaga sensação de medo apoderou-se-me do coração. Lancei um olhar súbito e rápido, examinando o seu rosto como se fosse ver se, afinal, não tinha sido pura imaginação.
Ao aproximar-me da cama, ouvi a mulher dos olhos claros murmurar qualquer coisa e com a faca rasguei-lhe o tecido sedoso da saia. O meu rosto assumíu um sorriso sinistro quando discerni o estômago compacto de uma vagina alegre, inexplicavelmente ardente, com dois lábios carnudos a sorrirem- -me com desdém. Os meus dedos avançaram sem receio naquele emarenhado de pêlos insaciáveis e eu podia ouvir, numa excitação quase demoníaca, o praguejar saturado do meu pénis.
Tornei a colocar-me em cima dela e beijei-lhe os lábios ressequidos, enquanto que com as mãos lhe apertava, com firmeza, a carne erubescente dos lábios da vagina. Ela contorceu-se de prazer e desejei libertar-me do peso aborrecido das roupas e acariciar-lhe com afecto, o íntimo daqueles lábios espessos. Nesse momento tive a sensação de que alguém estava a olhar para mim.
Quando me voltei senti uma pancada forte nos queixos e caí sobre o corpo adormecido da mulher, ainda a praguejar uivos de prazer. Ao abrir os olhos senti uns dedos efeminados à volta do pescoço e, nesse momento, quando me quebraram os ossos das mãos, pareceu-me ouvir o teu riso mesquinho de desavergonhada, a ressoar pela carne adentro, num gozo irado.
Nessa altura, quando tentava mexer os dedos das mãos, encontrei o rosto esfolado da mulher dos olhos escuros, suspenso num pescoço coberto de sangue, ao lado da cama. Ela lançou-me um olhar rápido e senti um arrepio pelas costas abaixo. Entre os lábios cerrados, descobri-lhe a extremidade de dois dentes aguçados, a faiscarem a loucura sinistra que me havia estrangulado a vida. E lembrei-me do paladar agridoce dos teus beijos, quando numa ânsia meticulosa, percorreu com os dedos compridos, a pele ensanguentada do pescoço. E lembrei-me do peso dos teus lábios ao discernir as marcas profundas dos meus dentes.
Foi com um sorriso grave que a vi erguer a faca. Os seus olhos piscaram quando, pouco depois, a lâmina se me enterrou na carne. A minha boca abríu-se num espasmo descontrolado, soltando espessos fios de sangue, na tranquilidade sóbria das crianças ingénuas.
8
Foi com espanto que abri os olhos.
Em frente, afastada da cama, estendia-se uma janela onde podia ver uma luz a brilhar lá fora, fazendo reluzir as vidraças como o lume das fogueiras. Ao meu lado apercebi-me do resfolegar inquieto do teu corpo, a agitar-se debaixo dos lençóis em gestos singelos de adolescente pecaminosa.
Foi com satisfação que senti o frio do chão debaixo dos pés, quando me ergui da cama. Soltei uma risada e fiquei a meditar um pouco, emocionado por saber que estava vivo, emocionado por sentir a presença inquieta do teu bendito cadáver.
Dirigi-me à janela e fiquei a observar os movimentos apressados dos pedestres, que se perdiam em refúgios de neon, embriagados pelo consolo da velha aguardente e pelos mimos descontraídos das putas.
As batidas do meu coração tornaram-se céleres quando escutei a tua voz atrás de mim:
– Que se passa?
Fiquei calado por uns momentos a prestar atenção ao fôlego excitado das tuas palavras. Quando me voltei, foi com júbilo que encontrei as pupilas sonolentas dos teus olhos, a repousarem serenamente nesse rosto simples que tanto adoro.
– Nada, querida. Não se passa nada – Sosseguei-a.
Depois voltei a postar os olhos na janela e, ao longe, descorado no Tejo que se perdia de vista, vogava a envergadura medonha do último cacilheiro, abandonado ao cuidado do vento e ao cheiro nojento das ninfas já bêbadas.
Cova da Piedade
Setembro
1992
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