terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

03. puta de vida










Prólogo

       Estava morto de cansaço quando abri os olhos.
       Comecei por distinguir um odor pestilento a medicação que me fêz contorcer de náusea, depois concentrei-me nas pequenas e irredutíveis pupilas de uma mulher, a manejar habilmente uma seringa. Vi-a sorrir com desdém quando me injectou qualquer coisa liquescente num dos braços. Senti, quase de imediato, todos os meus ossos agitarem-se por baixo da minha pele flácida, por entre os nervos. Senti depois aquele maldito líquido dispersar-se nas veias, regozijar-se no sangue e tormentar-me a mente. Apercebi-me da pouca nitidez que tornava, novamente, a afluir ao meu olhar, de como me sentira mal quando fechei os olhos antes de me encontrar aqui, fechado em paredes repletas de aparelhos hospitalares, deitado numa cama desconfortável e coberto por uns malditos lençóis fedorentos.
       Apercebi-me tambem de como um espelho à minha frente, estável, parecia tornar-se num envolvente e dissonante reflexo da minha face, que exibia os traços verosímeis que me faziam ser quem era, que me davam uma identidade, uma alma e sei lá mais o quê.
       Ouvi uma voz murmurar uma asneira e depois o silêncio. Deixei de ver as pequenas pupilas da mulher, deixei de ouvir a voz, e o arquejar ofegante da minha própria respiração; enfim, deixei-me levar pela corrente venenosa que vagueava nas minhas veias, destituído dos meus movimentos, num corpo mal amado, num corpo desamparado. Contudo ainda conseguía discernir algumas formas, um tanto ou quanto erróneas é certo, mas conseguía. Deixei de ver o espelho, agora encoberto por uma cara prostrada à minha frente, com uns olhos gigantescos, deformados, que vigiavam as minhas retinas, num diabólico sorriso de canibal. Apercebi-me que era a mesma mulher, só que agora não empunhava aquela seringa que amedrontara as minhas reacções, impelindo-me para um estado de contemplação, nem exibia as mesmas pupilas pequenas e firmes. Agora deixara de ser uma mulher, um ser humano, confundia-se a um animal hediondo, de olhos esbugalhados.
       Tentei abrir a boca para difamar aquela criatura que não arredava pé, mas os lábios pareciam estar agrilhoados e uma sensação de enjoo subíu-me à boca. No entanto, o corpo ficou imóvel, adormecido, putrefacto. Só os olhos continuavam  semi-cerrados, doridos e, uma vontade enorme de morrer passou-me pela cabeça. E a maldita criatura lá estava, como que ancorada à minha frente, com aquele sorriso erubescente de vadio, a fixar-me e a mexer os lábios como que a insinuar ousadias e difamações. Como me apetecia escarrar-lhe em cima.
       Depois, depois senti uma poeira imensa trazida por um vento que não existia  e me cercou o corpo todo. Por fim, tentou-me, sem compaixão, para a profundeza de um sono irredutível. Tudo à minha frente se extinguíu. A silhueta da mulher de olhos gigantescos esbateu-se de uma forma misteriosa e o espelho era agora um manto viscoso e negro, que nada reflectia e que nada significava, senão isso mesmo: um horizonte infinito, espalhado e eu, a única criatura nele contido, que nesse mesmo horizonte vivia, sonhava, revelando as minhas intransigências, exigindo a minha vontade; uma criatura que administrava um mundo harmonioso, cintilante, morto.
       E depois a escuridão.
       Um frio com sabor a indiferença trespassou-me a pele branca como que numa ânsia desesperada, guindou-se pelas veias acima até repassar os ossos que quase se quebravam. Depois, afogado na extenuante escuridão, sem poder abrir os olhos, sem poder mexer as mãos, os dedos, sem poder afastar os lábios, sem poder distinguir formas, contrastes, cores, cheiros, apercebi-me da inquietante sensação que era estar-se morto.









1

       Tudo começou quando viajei até Beja, ao encontro do enterro da minha falecida mãe, ao encontro da depravação escondida nos malmequeres daqueles campos tórridos. Tudo começou quando a encontrei, junto ao rosto banhado de sangue do seu pai, do seu corpo nu, estiraçado num terreno alagadiço. Tudo começou quando os nossos olhares se encontraram, quando as nossas pupilas se transfiguraram. Lembro-me ainda, com saudade, das suas mãos escondendo as lágrimas, do brilho indefinido dos seus olhos – um esplendor de luz que vagamente se manifestava.
       Era uma rapariga de tez desmaiada, apresentava uma madeixa branca no seu longo cabelo negro que lhe cobria os ombros roliços e tinha um ar franzino. Os seus lábios pareciam-se mais com duas tiras delgadas unidas à pele do que aquilo que deveriam ser, ou parecer-se. De qualquer dos modos, apetecia trincar. Lembro-me agora que queria ser bailarina, dissera-me uma vez, quando nos amávamos, escondidos nos lençóis da cama da minha falecida mãe, entre o murmúrio sibilante dos pássaros e o arquejar resfolegado do seu corpo, de encontro ao meu peito, a cantar segredos e a prometer desejos, usufruindo do nosso calor, do suor quente dos nossos corpos quase cadavéricos, baloiçando beijos truculentos.
       Tudo começou quando as suas palavras me surgiram aos ouvidos, como uma estonteante melodia: Você é novo por estas bandas, não? E os seios? Quais outeiros deformados, quais delícias flácidas, apodrecendo em peçonhentas mãos de amantes, ocultos nos seus beijos erubescentes! Eram divinos, pequenos moldes arrebitados que se debatiam, ansiosamente, para se libertarem da camisa sem botões, em busca das minhas carícias, dos meus olhos desfeitos em desejo. Você é novo por estas bandas, não? Repetiu a rapariga, fixando-me com aqueles estranhos olhos, numa expressão perfeitamente calma, sorrindo, aproximando-se e eu sem responder, embriagado pelo seu corpo fulguroso, resplandecente. Toda ela faiscava, todos os seus movimentos eram encenações graciosas e num certo sentido até, pareciam-se diabólicos.
       Então, de repente, uma sombra aproximou-se de nós, postou-se à minha frente sem falar, com ar autoritário. Voltou-se depois para a rapariga, agarrando-a pelo braço, esmagando-lhe a carne, desfarelando-lhe a pele e arrastou-a consigo, sem dar importância aos seus gemidos.
       Depois fiquei só, a contemplar os miolos sumptuosamente esmagados do homem, de olhos muito abertos, que jazia à minha frente. E, quando me preparava para voltar costas àquele horror, aos gemidos cada vez mais distantes da rapariga, em direcção ao cadáver da minha mãe, um homem muito alto, de barba escanhoada, muito magro e pálido acercou-se de mim. Estava vestido de maneira exímia para um enterro e ostentava um sorriso sem brilho, e sugava com vaidade o seu extenso e dilatado charuto barato.
       Ora se não é o menino Luis Almeida, disse o homem, sacudindo-me os ombros com as mãos rugosas, em forma de felicitação. Desculpe? Inquiri com ar duvidoso, sem compreender donde raio aquele homenzinho me conhecia. Perdão, perdão, menino Luis, desculpou-se o homem, extraindo o charuto de entre os lábios, soltando um aroma a desinfectante. Como poderia o menino Luis recordar-se de mim, após tantos anos, não é? Já lá vão os bons tempos aquando das nossas brincadeiras, não é assim? Mordeu de novo o charuto, agora com um sorriso mais convidativo, a fixar-me demoradamente, como que à espera da resposta à sua pergunta idiota. Bom, disse o homem, lançando um longo bafo do seu austero charuto. Vamos mas é andando que a sua tia está à espera. E eu sem responder, como que fascinado com as suas palavras dissonantes, sem harmonia. Ainda se lembra onde fica, não? A casa, quero eu dizer, bom, esqueça.
       E lá fomos, atravessando o cascalho, numa marcha vacilante, sem firmeza nas pernas, incomodados pela desigual ondulação do caminho. E por momentos esqueci-me do corpo do pobre homem, esvaído em sangue, deitado num leito fétido de terra, água suja e sangue. E lá fui, massacrando lascas de pedra, inspirando o agradável paladar dos malmequeres, sem saber para onde aquela criatura me levava, esquecido da postura da rapariga, dos seus olhos sinistros, dilacerando-me o coração.










2

       Agora recordo-me dos olhos tristes da minha mãe, estendida no caixão aberto, esquecida na auréola perfumada das flores berrantes e dos círios ardendo na penumbra da sala. Lembro-me que nem as gotas das minhas lágrimas, a tombarem na sua face, nem o choro inconsolável dos outros a acordaram. E a tarde que avançava e ela sem abrir as retinas, sem soluçar, sem abrir os braços e me dar um puxão de orelhas, como fazia sempre que me portava mal. Mas a luz suavizada que penetrava nas frinchas da janela, servia apenas para realçar o encanto dos seus traços, os restantes despojos da sua presença e, essa luz ilimitada que a revelava, que a trespassava, oprimia-me e fazia-me chorar. Lembro-me que as lágrimas resvalavam sem parar, obscurecendo-me a vista, impedindo-me de contemplar a sua pele branca, os lábios secos, o contorno da sua calma, o recorte severo da sua expressão. Lembro-me que fugi, desamparado, debaixo de olhares indiscretos, sob rostos vincados de rugas, maltratados pelo tempo.
       Obrigado por teres vindo, disse uma voz cansada atrás de mim. Passaram-se alguns segundos e quando me voltei, os olhos pesados da minha tia enterraram-se nos meus. Isto passa já, desculpei-me, limpando as lágrimas que pareciam não querer cessar. Não te preocupes, disse-me ela, observando os meus olhos vermelhos. Não é por chorares que deixarás de ser menos homem, continuava ela, soluçando, puxando pelas cordas vocais. Depois, à soleira da porta da casa da minha falecida mãe, surgíu uma sombra muito alta e muito magra, lançando nuvens de fumo cinzento. Vai por ela rapaz, porque a tua tia fala certo, disse a sombra, aproximando-se muito lentamente, a tossir. Não te podes envergonhar do que fizeste, grunhiu a sombra, tossindo de novo. Esses charutos ainda dão cabo de ti homem, censurou a minha tia e eu sorri quando discerni a figura do homem que fumava charutos baratos com sabor a desinfectante. Ora mulher, que mal fazem umas passas?
       Lembro-me agora, atravessando o tempo, das brincadeiras que faziamos, eu e aquele homem já consumido, não pela idade mas pelos maus tratos por que passara. Há dez anos que me tinha esquecido daquele homem, mas agora lembrava-me perfeitamente desse tempo. Gilberto gozava de uma saúde de ferro e ambos andávamos na tenra idade dos vinte, esquecidos das arrelias em casa, dos desgostos que causávamos, violando as horas com sorrisos pacientes, procurando nos campos de malmequeres promessas e desejos. Eram nesses instantes que os nossos olhos se perdiam, delirados, pelo corpo tenro da minha prima Janita, enquanto as minhas mãos lhe percorriam os seios, atravessando-lhe a carne fresca, até os nossos lábios morrerem juntos no pecado mortal. Só depois os dedos brandos de Gilberto se estendiam pelo seu corpo frágil, até se perderem em curvas labirínticas. E ali ficávamos, escondidos no campo, atrás da pequena casa da minha tia, até os corpos se deflagrarem, até o orgasmo nos matar.
       E agora, passados dez anos, as nossas feições pareciam delimitadas. Aquele homem, que sempre sorria delicadamente, que me tratava como um irmão, tinha agora uma expressão que não se lhe adaptava. A cara, descorada pela constante aspiração do fumo dos charutos, parecia desorientada, sem brilho, alheia a tudo, incomodada pelo tempo, que tardiamente se desfalecia. Não se demorem, disse a minha tia a olhar para o marido, quebrando o silêncio dos meus pensamentos. Temos que nos apressar para o enterro!
       Depois ficámos sós, observando-nos, fixando os olhos nos vincos da face, tentando adivinhar quem estava mais velho, quem morreria primeiro. Depois vi-o desviar o olhar.
       – Ainda hoje – comecei, – por vezes ponho-me a pensar nas coisas que fazíamos, nos disparates que dizíamos, lembras-te? – E ele sem responder, absorvido pelo andar pesado da mulher que se afastava, castigando a terra ensopada pela luz do Sol com os chinelos.
       – Desculpa, não ouvi, estava distraido, ela já não é o que era.
       – Como está a Janita? – Inquiri, sem desviar o olhar.
       – Algures lá para o Algarve – Disse, num tom algo compremetido. – Casou-se com um maldito alemão qualquer.
       O Sol batia-me agora com bastante intensidade sobre o corpo, derretendo-me a pele, enlouquecendo-me.
       – Ainda hoje acho que não deviamos ter feito aquelas coisas com a Janita – Disse eu, sem conseguir discernir, debaixo daquela torrente de luz que se abatia sobre nós, o seu sorriso sem brilho.
       – Que diabo! – Grunhiu Gilberto – Porque dizes essas coisas?
       – Ora, Gilberto, no final de contas ela era tua filha.
       – Minha filha uma ova! Ela nunca foi minha filha, aliás, tenho mesmo a certeza que ela nunca conheceu o pai. Sabes muito bem como a tua tia era com os homens, especialmente com os alemães.
       Agora podia ver, embora o Sol continuasse a castigar-me as pálpebras, a face dura como pedra daquele homem que me ajudara a conhecer o paladar do vinho, a força dos músculos e o interesse pelas mulheres. Sabia que o tinha irritado, mas éramos amigos e ele nunca me bateria, não podia.
       Vi-o voltar costas, dirigir-se para casa, onde todos nos esperavam, soterrados nas suas lamentações e eu, empedernido por dentro, quase que já não sentia nada pela minha mãe, quase que podia entrar de novo na casa, olhá-la, beijá-la e ir-me embora daquele lugar, sem um pouco de rancor no coração.









3

       Do enterro nada me recordo, esquecido no longo cabelo da rapariga, nas suas palavras coaguladas na memória, morrendo de saudade. Foi então mais tarde, em casa da minha falecida mãe, que a minha ânsia em encontrá-la de novo aumentou. Foi com Gilberto que me atrevi a falar, apesar do seu olhar sisudo com que me encarava. Postei-me à sua frente, incomodado com o seu olhar. Lancei-lhe um sorriso desconcertado e desviei o olhar para os outros que se cumprimentavam em abraços constantes, que lançavam saudações rápidas expressas em palavras desleixadas.
       – Gilberto... – Disse, penetrando nos seus olhos desconfiados.
       – Já sei – Murmurou ele. – Não vamos falar aqui, por vezes as paredes têm ouvidos.
       E então saimos. Era noite quando os nossos corpos transpuseram a porta da casa da minha falecida mãe. No céu – negro e resplandecente – assinalavam-se algumas estrelas que reluziam sem cautelas e, por momentos, fiquei sem vontade de falar com aquele homem, agonizado por aquela imensidão de trevas. Ao longe, perdidas na noite, algumas luzes ensombravam pequenas estruturas de pedra com portas e janelas de madeira que jaziam ao acaso. Voltei-me então para Gilberto, escondendo os meus receios, mas foi ele quem falou:
       – Não precisas de temer, meu amigo. Aquela rapariga mexeu mesmo contigo, não foi?
       – Como sabias que era sobre ela que queria falar?
       – Porquê tanta admiração, rapaz? Já não somos aqueles gaiatos de vinte anos, sei muito bem quando um homem se sente ansioso, Luis. Foi com essa ansiedade que conheci a tua tia e, além disso, bem que reparei na maneira como a olhavas hoje quando nos encontrámos.
       – Sabes que nunca vi uma mulher como ela, Gilberto? Aqueles cabelos, aquele olhar estranho?
       – Chama-se a isso, meu amigo, amor à primeira vista.
       Por momentos acreditei nele, mas era impossivel, não podia ser, se bem que na realidade nada parecido com aquilo me tinha acontecido antes. Era estranho, mas agora acho que ele tinha toda a razão. Ainda hoje todo o meu corpo vacila, todos os meus ossos quase se quebram quando medito sobre ela.
       – Desculpa que te diga, Luis, mas seria mais sensato se tentasses esquecê-la.
       – Não posso, meu amigo – E era verdade. – Simplesmente não consigo.
       – É pena – Disse, virando-me as costas, na medida em que já se esquecia da minha presença e contemplava as mãos engelhadas.
       – Que se passa, Gilberto? – E ele sem responder. – Porque não respondes? Que diabo, antes não havia segredos entre nós, defendíamo-nos um ao outro, não te percebo agora.
       Quando se voltou, para me enfrentar, para me castigar com aquele olhar sisudo, todo o meu corpo estremeceu de receio.
       – Admiro bastante a tua perseverança, Luis. Tu sempre foste muito impetuoso, mas por vezes a teimosia pode levar à morte.
       Ele bem me avisava, ele bem queria impedir a minha morte, mas a minha razão estava cega e não conseguia entender as suas palavras, o porquê da sua insatisfação. Fui estúpido em não conceber os meandros que a minha vida poderia vir a tomar, mas que raio, eu morreria de qualquer dos modos se não a tornasse a ver. Só a ideia de regressar a Lisboa sem voltar a encontrar aqueles seios divinos, sem ouvir de novo a sua voz, matar-me-ia de certeza.
       – Ela é filha do homem mais rico aqui da terra, ou melhor, era o mais rico.
       – Queres tu dizer que aquele homem era...
       – Pobre alma, que Deus o resguarde das más línguas.
       – Porquê tanto mistério em volta dessa rapariga, Gilberto?
       – Luis... – As suas retinas estavam inflamadas e aquele corpo muito magro quase que se desmoronava perante as minhas perguntas. – Luis, fala-se por aí que esse homem era contrabandista, que matava por dinheiro e que sugava o sangue dos seus inimigos para alcançar os seus fins. Por um lado foi bom terem-no morto.
       – E a rapariga? Que papel tem ela no meio dessa história?
       – História? História? Por amor de Deus, Luis, não me tormentes.
       – Não posso crer que possas acreditar em tudo o que se diz por aí.
       – Tu já não vives aqui, meu amigo, já não pertences a esta gente – Os seus olhos quase me queimavam a carne, tão erubescentes estavam. – E digo-te mais uma coisa, de amigo para amigo, esquece-a e volta depressa para Lisboa, não conseguiria suportar a tua morte.
       É verdade, o meu bom amigo Gilberto, intimidava-me com as suas cantigas de rumores, com as falas sem nexo dos outros, das histórias que contavam. Tambem é verdade que não sinto remorso algum por não ter acreditado nas suas palavras, como tambem não sinto rancor por ter dado a alma ao Criador por ela, mesmo sabendo que não me amava.









4

       Era dia quando abri os olhos. Recordo-me que, perdido na ofuscante luz que trespassava as frinchas da janela, ela parecia ali estar, de rosto enterrado no meu, num sorriso ausente. Tentei ainda alcançá-la, mas, a imagem que me incendiava o desejo, pareceu desvanecer-se por entre os dedos que, no entanto, não haviam tocado em nada. Soube então que, aquele desejo que se incendiava dentro de mim, me iria consumir a carne e me iria desfalecer até a morte me embriagar numa completa escuridão, mas não cheguei a temer. Sentia-me forte e via-me como um anjo do apocalipse, tomando cálices de Absinto, deleitado no seu ventre, a contemplar a paisagem bucólica.
       Os meus pensamentos foram afastados quando ouvi gritarem pelo meu nome, como uma profanação e por momentos, desprezei toda aquela gente, desprezei aquele maldito campo de malmequeres e desprezei os silvos dos pássaros lá fora sem sentido. Quando cheguei à cozinha ainda de olhos esgazeados e de cabelo desgrenhado, os meus olhos fixaram-se na expressão sisuda com que Gilberto me observava. Era a mesma expressão da noite anterior, aquele olhar de mau humor, sombrio, e que agora parecia tornar-se mais arrogante. Já não era sem tempo, disse Maria Adelaide quando me viu. Vai-te arranjar primeiro, sugeriu a minha tia antes que me pudesse contorcer numa cadeira e saborear o café da manhã, de lábios cerrados, a ouvi-los falar de como o enterro fora bonito, de como as flores desfilavam pelo caixão e de como toda a gente se sentia esmorecida.
       Foi na casa-de-banho que tornei a reparar na expressão perturbada de Gilberto, que me fixava através do espelho embaciado. Sei que não vais desistir, disse, olhando-me de bem perto, perscrutando a minha respiração, as batidas desenfreadas do meu coração que quase saltava do peito. Só espero que ela seja realmente digna de ti, e eu sem responder, a olhar para o espelho cada vez menos visivel, como se a sua expressão se tivesse tornado numa obsessão para mim. Quando me voltei para o enfrentar, debaixo dos vapores de água que continuavam, insistentemente, a morrerem no lavatório, vi-o afastar-se.
       Lembro-me que nessa mesma manhã a atmosfera estava mais quente e os pássaros entoavam agora cânticos mais inquietantes, perdidos nas sombras dos chaparros. Depois daquela refeição estiracei-me um pouco ao Sol, para contemplar a imensidão do céu e perdi-me, como uma criança, no seu romantismo. Até então não me tinha apercebido de como o Sol poderia despertar uma sensação tão fantasista. Agora podia conceber ideias que nunca me haviam sequer passado pela cabeça, sempre ausente do silêncio, com os ouvidos estigmatizados à depravação, à poluição e aos insultos. Ali, rodeado por habitações pacatas, estiraçado na erva macia, de olhar estável e de ouvidos surdos, concebia o céu de uma maneira inverosímil. Deixara de ser mais um fenómeno estático à vida, fruto da Criação, para se tornar numa grande extensão de água que me envolvia sem humedecer o corpo, que me trespassava a carne numa luxúria desinibida e me elevava nas alturas como um pássaro e, como se os meus braços fossem asas – pequenas plumas encarniçadas dançando ao vento que não existia.
       Não são horas de dormitar, gritou Maria Adelaide aos meus ouvidos, fazendo com que as minhas asas perdessem a estabilidade e o meu corpo, transformado em pássaro, caísse na realidade. Ao abrir os olhos, apercebi-me do ar cansado da minha tia, tambem ela a contemplar o céu que nos cobria. Nunca vi nada de especial neste céu, disse olhando para mim. Nem mesmo nesta terra maldita, de modos que não compreendo essa tua obstinação. Tentei responder-lhe, mas não consegui descobrir palavras que pudessem traçar a viagem que acabara de fazer. A sensação de desdém que tivera para com ela e para com todos os outros, desvanecera-se depois de ter tocado o céu, depois de apreciar aquela expressão que os seus olhos vomitavam.
       – Hoje vamo-nos embora, Luis. É com desgosto que abandono esta casa, mas as coisas são como são, não é? O João já acabou de construir a casa em Beringel, só estávamos à espera da cerimónia para partirmos. Quando pensas regressar a Lisboa?
       – É difícil de decidir neste momento – Respondi, contemplando a sua face já velha. – Tenho umas coisas a tratar primeiro.
       – Não te percas em recordações, meu filho – Disse ela, dando-me uma palmada amigável na cara. -- Ficamos velhos mais depressa.
       – Quando pensa partir, tia?
       – Já. É só preparar as coisas.
       – E o João, onde é que ele está?
       – Foi à oficina do Manel ver se o carro já está em condições.
       A oficina do tal Manel ficava algures no fim daquela estrada que se perdia no horizonte branco. Deixo a nossa morada em cima da mesa para o caso de nos visitares um dia, gritou Maria Adelaide numa voz sem melodia.
       Fui encontrar João Gilberto não na oficina mas sim num pequeno café em frente, a bebericar a sua inestimável Super Bock matinal. Numa das mãos segurava um dos seus charutos baratos, enquanto a outra batia na mesa, em compassos ritmícos. Não sorriu quando me viu, nem tão pouco se mostrou aborrecido pela minha presença. Parecia que se tinha convencido que nada podia fazer em relação à minha teimosia para com a rapariga. Ficámos ambos a olhar-nos, a remexer na memória, a recordar instantes. Foi Gilberto quem quebrou o gelo do silêncio que se abismava entre nós:
       – Até um dia destes, Luis.
       Depois ergueu-se, ingeríu a restante efervescência que restava na garrafa e saíu do café, sem me deixar um abraço. Desde essa manhã que nunca mais tornei a ver a minha tia nem mesmo Gilberto, a fumar os seus enormes charutos nauseabundos.
       Foi então nesse mesmo café que tudo começou. Passavam poucos minutos das dez da manhã e a figura magra de Gilberto havia desaparecido na estrada, por entre um Sol cada vez mais doloroso e um céu mais branco, quando ela entrou, sublime na sua postura de anjo. As poucas pessoas que restavam no café não ligaram importância àquela aparição, mas os meus olhos estavam ávidos de prazer e senti um aperto no coração quando ela se sentou na mesa. Não falámos, mudos ao que nos rodeava, atentos um ao outro.
       – Preciso de falar consigo – Disse ela primeiro, naquela sua voz agradável.
       – Tambem eu. Foi bastante desagradável aquilo que aconteceu aos nossos parentes.
       – Lamento imenso a morte da sua mãe, o mesmo não posso dizer do meu queridinho pai.
       Antes de continuar, ela passou a língua pelos lábios secos e desviou o cabelo negro dos olhos, com um movimento ágil de ombros.
       – Ele era um sacana. Todos aqui em Beja sabem como ele tratava as pessoas que lidavam com ele. Era grosseiro com os criados, era descortês com os amigos e várias vezes amaldiçou algumas entidades que usufruiam de altos cargos aqui na terra. É claro que essas suas atitudes impensáveis deram azo a conflitos bastante aborrecidos, inclusive algumas ameaças de morte. O que lhe aconteceu ontem foi o que já estava previsto à muito.
       – Porque me conta tudo isso? Sou um estranho.
       – Por isso mesmo – Disse ela, colocando as mãos sobre as minhas. – Por ser um estranho é que penso que compreende melhor aquilo que sinto, não estes velhos senis que vivem de factos consumados e rumores.
       – Ouvi dizer que o seu pai era contrabandista. É verdade?
       Ela não respondeu. Limitou-se a fixar-me as linhas do rosto, como se estivesse à procura de algo que eu desconhecia. Depois sorríu e acariciou-me a pele das mãos com os seus delgados dedos.
       – Porque não falamos sobre isso noutro lugar? – Inquiríu ela, erguendo-se. Quando se inclinou para me puxar pelas mãos, pude observar os seus seios pequenos e arrebitados vibrarem de encontro à camisola de mousse que lhe descobria os ombros. Desejei tomá-la ali mesmo, sobre a mesa, como um felino assanhado, sem dar importância à zombaria dos velhos nem ao estrondo dos Tornados alemães a sobrevoarem lá fora.
    









5

       Lembro-me que fomos passear pelos campos, moldados por malmequeres e um calor que nos dissecava a carne. Sentía-me perturbado debaixo daquele iminente calor, mas não me importei. Lembro-me ainda que durante a nossa divagação não trocámos palavras, nem mesmo meros sussurros, ausentes um do outro, dizimados simplesmente pelo contacto das nossas mãos. E recordo-me que andámos sem parar até o cansaço nos separar violentamente, algures perdidos naqueles campos tão semelhantes, longe das casas, longe das gentes.
       Lembro-me que lhe queria dizer tudo o que sentia por ela, o que desejava dela, mas as palavras prendiam-se na garganta, sufocadas pelo cansaço. E estivemos assim, a respirar com dificuldade, durante minutos, os meus olhos percorrendo todo o seu corpo até as minhas mãos agarrarem o seu pescoço. Ela não estremeceu, parecia mesmo pronta para tudo -- os seus lábios secos gemendo pelos meus. Hesitei, apercebendo-me que tudo aquilo estava a ser fácil demais, e que devia de haver algo que me ultrapassava, algo que ela escondia. Tentei falar, mas a língua parecia ainda presa. Olhei-a profundamente nas retinas e, por momentos, senti uma náusea tomar conta dos meus sentidos que por pouco tombava no chão.
       – Sentes-te bem, Luis? – Inquiríu, segurando-me nas mãos.
       – Como sabes o meu nome?
       – Ouvi por aí – Respondeu com um sorriso nos lábios. – Sentes-te bem de certeza?
       – Sim. Foi uma simples tontura.
       – Não deviamos ter corrido daquela maneira. Pareciamos dois míudos.
       – Tenho umas coisas para te dizer, Gabriela – A minha voz agora já se arrastava com naturalidade. – Tenho estado toda esta manhã a pensar em como começar.
       – Não tenhas receio, conta-me.
       E contei. Contei como me sentia inflamado por dentro, como as chamas da paixão me consumiam o coração, como desejava possuir o seu corpo frágil, como desejava saciar a minha fome, como desejava beber o sangue das suas veias e deleitar-me nos seus braços de alentejana.
       Ela, cujos lábios tremiam como o ventre de um pardal apavorado, medíu no seu interior o que lhe fora dito e decidira-se pelo silêncio. As suas pestanas cor-de-rosa cintilavam debaixo do Sol. E recordei-me, para fugir ao perigo das lágrimas, das palavras crueis da minha mãe, atiradas com solenidade ao ar:
       – Nunca te apaixones por uma rapariga de pestanas bonitas, senão hás-de acabar sozinho como um cão.
       E quão bonitas aquelas pestanas eram. Quão de sensual aquele par de pêlos sedosos expeliam, numa aparência divina de anjo? Foi ela quem me tirou daquele estado propenso à meditação com um medíocre e instantâneo beijo pelas mãos. Quando os meus olhos se perderam de novo pelos seus, as lágrimas, por fim, venceram e surgiram nas retinas, como pequenas gotas inflamadas de desejo. Depois, ela apertou-me os dedos das mãos, fechou as pálpebras com força e deixou cair o corpo de encontro à erva macia. Se calhar é isto a vida, pensei limpando as lágrimas, afogar as angústias no corpo escancarado de alguém e gozar em magnificiência as pétalas desse mesmo corpo. Merda, era simples demais se a vida fosse isso mesmo: a submissão dos pecados ao delírio das vontades, por mais lascivas que fossem. E ali estava eu, a esquecer-me, a afogar o sofrimento naquela pétala rosea estendida ao meu lado, que desapertava, num silêncio devasso, os botões fuscos das calças de ganga. Se calhar era mesmo isto a vida, tornei a remoer no juízo, quando ela me puxou para si. O meu corpo, pulsando de uma exorbitante excitação, caíu sobre ela como um freguês à beira da última complacência para com a puta.
       Os meus lábios descarregaram sobre os dela uma significante carga de violência, ao mesmo tempo que os meus dedos ansiavam a braguilha das suas calças. Quando por fim, as nossas línguas começaram a debater-se numa contenda espasmódica e os meus dedos atingiram as suas cuecas húmidas, ela envolveu as pernas à volta do meu dorso, numa pustura atrevida de puta acostumada a tais frenéticos hábitos. Não me importei, na verdade, nada mais me interessava, senão saciar a fome naquele corpo lúbrico. E tudo parecia estar tão longe, a silhueta descolorida da minha mãe, abraçada ao leito da morte, o sorriso inócuo de Maria Adelaide e a companhia afeiçoada de Gilberto.
       E enquanto o meu pénis se debatia, preso no interior das calças, para libertar a sua raiva libidinosa, veio-me à memória a figura tenra de Janita, ainda com os seus adolescentes vinte anos de menina puritana, a sugar-me os lábios frescos em constantes mordeduras selvagens, numa busca incansável pelo meu pénis. Depois reparei que era Gabriela quem tambem fincava os dentes nos meus lábios vermelhos, movendo-se freneticamente debaixo de mim, ainda com as pernas entrelaçadas sobre o meu dorso, como que à espera da penetração do meu abono de família que, agoniado, não se conseguia libertar da pressão das calças. Ouvi-a gemer, mas a minha atenção estava para além deste mundo, que não liguei, limitando-me, numa infatigável determinação, a afagar o seu clitóris com os dedos, onde estes vogavam como náufragos erubescentes, e que por vezes penetravam no precípício sem clemência, levando-a a gemidos ainda mais sensuais.
       Foi numa última troca de ósculos que acordámos daquela sensação de vitória incompleta. Ao erguer-me, o corpo vacilou, como que atordoado por aquela bem-aventurada experiência, desfeita abruptamente por um acaso qualquer que eu mesmo desconhecia. Depois, numa sensação de alívio, senti o enchumaço entre as pernas perder aquela protuberância que me deixava num desconsolo alienado. Olhei então para Gabriela, ainda embriagada. Parecia-se mais com uma cadela, o modo como manifestava o seu apetite, de lábios entreabertos, com o gosto da minha língua coagulado na traqueia, ao mesmo tempo que passava os dedos pela imensa floresta negra que a braguilha descobria.
       Como um anjo prestes a ser crucificado pelo seu pecado mortal, fiquei ali, padecendo, sem movimentos, a observá-la a acariciar-se, a enrolar, caprichosamente, nos dedos delgados aqueles cabelos sedosos que cobriam a sua profunda caverna de carne que tanto adorava. Depois, num movimento desabrido, vi-a contorcer-se de espasmos, à medida que roçava os seios um no outro, submersos numa camisola de mousse, onde agora exibia as curvas arrebitadas dos mamilos. Num gesto ainda mais prometedor, vi-a espernear como uma fidedigna coelhinha da Playboy, num mostruário qualquer só para homens, e foi então que abríu os olhos, acordando da convalescença, a expelir aquele brilho austero e indefinido das retinas, que só ela compreendia.










6

       Era já noite quando acordei e foi com grande satisfação que me apercebi que afinal, aquele velho colchão ainda conhecia o jeito do meu sono. Lembro-me que estremeci, quando, ao abrir os olhos, a avistei a sair do nevoeiro da casa-de-banho, como uma fugitiva de um carroussel enlouquecido. Trazia uma toalha branca envolta da cintura e um sorriso cruel a fender-lhe a boca. O cabelo negro, esmiuçado em longas lâminas soltas, escorria-lhe pelos ombros, roçando os seios livres, numa dança profética. Naquele momento, senti o meu corpo transformar-se numa vaga densa que, a qualquer instante poderia estoirar numa explosão de espuma, que daria para apagar todas as velas do Vaticano. E a minha inquietação recrudesceu quando ela passou a língua dardejante pelos lábios e, em deslocações lascivas, caminhou em direcção à cama, devassando a pouca claridade com os olhos. A sua sombra rastejou até mim, como um volátil corpo de serpente, em busca da iminente vítima, enquanto os seus olhos resplandeciam na quase obscuridade do quarto. Lembrei-me então que fora naquele mesmo brilho indefinido que criara, dentro do meu coração, um desejo tão ardente, uma paixão aterrorizante, repleta de alucinações vitupéricas. Fui, por instantes, assolado pela ideia de que, não era o seu corpo que desejava possuir, mas sim, um refúgio que ansiava naquele olhar.
       Quando regressei daquele estado de divagação para a realidade do quarto da casa da minha falecida mãe, já Gabriela se envolvia debaixo do lençol, acariciando-me o peito. Lancei-lhe um sorriso afável e aconcheguei melhor o lençol ao pescoço.
       – Ainda não me disseste se o teu pai era realmente um contrabandista.
       – Precisamos de falar sobre isso?
       – É necessário.
       Ela ergueu-se e retirou um cigarro do bolso das calças estendidas aos pés da cama. Vasculhou no outro bolso até encontrar um isqueiro de cores berrantes, com a marca de uma aguardente estampada. Uma chama aflita ondulou no escuro, tal uma bailarina circuncisada, num galope precipitado pelas pautas de um Bolero alucinado.
       – Podiamos era fugir para Lisboa – Aconselhou, lançando-me um longo bafo. – Podiamos fornicar todo o dia sem que nos chateassem – Gracejou, escondendo parcialmente a cara por detrás dos dedos.
       Tentei não me mostrar muito desapontado, mas não me serviu de nada. Era uma desilusão. Cheguei-me mais a ela, sentindo a sua pele húmida roçando-me as pernas, e encostei-lhe a ponta do dedo indicador debaixo do queixo.
       – Não percebo a razão de tudo isto – Disse-lhe, num tom monocórdico e ela estremeceu, sentido a frieza das minhas palavras.
       – Que foi? – Inquiriu, soerguendo-se num misto semblante de estupefacção.
       – Não fiques zangada – Disse-lhe, calmamente. – Mas tu não passas de uma miserável puta.
       – Não estou zangada – Tinha um sorriso escarninho, mas a sua expressão foi rápidamente substituída pela raiva. – Mas não gosto que me chames isso.
       – Porque não? Desde que nos conhecemos que tens tomado uma atitude pouco própria de alguém com o mínimo senso de pudor. Só consigo lembrar-me de uma casta de mulheres capazes de se entregarem a um homem no primeiro encontro, tal como tu o fizeste, e chamo a...
       – Chega! – Gritou, esmagando a beata do cigarro de encontro ao chão. – És mesmo um idiota, Luis. As putas recebem dinheiro em troca, ouviste? E eu ainda não te pedi nada, caraças!
       – Ao princípio não me importei. É natural essas fantasias, mas pouco a pouco fui juntando peças e construí um puzzle, afinal, nada complicado.
       – Ah! Que idiota! Sabes uma coisa, Luis? Eu estava a gostar de ti, da tua companhia, dos nossos segredos, dos nossos beijos e, apesar dessas tuas amargas palavras, continuo a gostar de ti da mesma forma. Não vejo razão para nos magoarmos. – Ela franziu as sobrancelhas antes de continuar a sua charada de cigana escarrada nas portas da amargura. E eu, incólume, tal um espião num táxi, estava a gostar daquela sua reacção, daquele seu jeito doce de me conquistar. Não sei porquê, mas aquele seu martírio deu-me vontade de a aconchegar no peito, acariciar-lhe o seu longo cabelo negro e pedir-lhe desculpa pela minha brutalidade. – Sabes uma coisa? Se pudesse, provar-te-ia que estás errado. – Ela descaíu a cabeça sobre a minha barriga e acariciou-me o pénis através dos lençóis.
       – Vês? – Inquiri, um pouco desconcertado.
       – Perdoa-me, Luis – Disse, erguendo-se na cama, num ar exasperado. – Pronto, agora és tu quem está zangado.
       – Não, não estou – Respondi, perguntando-me como pudera deixar-me arrastar pelos seus encantos. Era um fraco, arrematei desmoralizado.
       – Sabes, Luis, é que... – Ela hesitou, encostando, desta feita, a sua cabeça leve no meu peito. – É que a minha experiência com homens nunca foi nada agradável. Sempre me senti oprimida quando era obrigada a ter relações com um homem.
       – Obrigada? Como assim?
       – Sim, obrigada. Meu pai nunca me permitiu ter relações com quem bem me apetecesse. Era ele quem escolhia os meus amantes e era ele quem me dizia o que lhes devia fazer. Foi sempre assim. Era como uma escrava, a qual devia oferecer gratidões aos seus amigos por favores consentidos. – Calou-se. Até mim chegou o odor quente da sua respiração, numa fragância mista de perfume de casa-de-banho com uma miscelânia de aromas de desodorizantes que preservam a camada de ozono. Fechei os olhos por um momento e voltei a abri-los. Estava à espera que ela continuasse com lamentações mas, as suas explicações pareciam ter terminado ali, pois ouvi-a soluçar baixinho, tão em segredo que não me apercebi se ela estava a chorar ou a rir.
       – O que realmente sou – disse ela, erguendo a cabeça até que os seus olhos tão sem definição, cobertos de lágrimas frias, penetraram, de uma forma incómoda nos meus, – perde-se no passado.
       Afinal, a vida não era só aquilo que pensara. Não era só colher os frutos dos cadáveres daqueles que se nos entregam de sexo escancarado, como, para infortúnio dos menos aventurados, saber suportar os dejectos invisíveis das suas frustrações. A vida era, sem dúvida alguma, uma cabra de merda e eu, que sempre pensara o contrário, achava-me escarrapachado mesmo no meio do esterco.











7

       Depois, num desassossego imoderado de compaixão, deixei-a confessar outros segredos que residiam acocorados numa espécie de feto atrofiado, algures na sua cabeça de menina mimada:
       – Sabes, Luis – murmurou naquela sua voz melódica, os seus lábios arrastando-se languidamente pela minha orelha, – quando era míuda sonhara vir a ser bailarina. Adorava vê-las rodopiarem naqueles sapatos frágeis, trespassando o ar.
       – Os sonhos nem sempre passam de ilusões – Anuí, deliciado com as suas suplicantes mordeduras ao de leve na orelha.
       – Achas?
       Não respondi, decidido a navegar, sem interstícios, naquela sumptuosa viagem das mil noites, embalado pelas suas constantes dentadas de Afrodite incurável e dos seus magestosos dedos, firmemente vincados na minha carne, ansiando o meu corpo, numa profícua jornada de espasmos, ansiando a protuberância do meu pénis.
       – Sabes, Luis – a sua voz chegava-me de muito longe, quase ausente, – de todos os amantes que tive, não houve nenhum por quem sentisse a paixão que sinto por ti.
       Depois, num apurado deslize de felina, o seu corpo colocou-se sobre o meu e os seios dançaram freneticamente, quando ajeitou as nádegas para melhor engolir o meu pénis que gritava de ardor. Vi-a sorrir, talvez um pouco surpreendida pela minha inesperada excitação, pois à momentos atrás tinha-a escorraçado, reclamando o seu maldito impudor desígnio de puta. Mas, naquele frenesim histérico de uma extenuante epopeia de arrebatamento, que o meu pénis estava a ter, friccionado naquelas nádegas caídas do céu, me esqueci completamente da indiferença com que a havia tratado.
       – Na verdade – continuava ela, na sua dissoluta confissão de pecadora insatisfeita, – eu não sentia nada. Eram eles que me devoravam. Eu apenas estava ali numa redenção submissa, iluminada pelas ordens do meu pai, diante daqueles filhos da mãe, a quem ele chamava de amigos. – Calou-se por uns momentos, num gozo eucaristial, saboreando os movimentos rasgados do meu pénis, entrando e saíndo de dentro de si. E eu admirava-me como ela era capaz de, ao mesmo tempo, articular frases e agitar o corpo em suspiros desgrenhados de autêntica satisfação, sem ficar cansada. Era como se aquele corpo se tivesse materializado numa incandescente deusa ateniense, articulando as plumas das asas ao rigor impaciente dos seus movimentos.
       E foi num grito extasiado que o meu corpo recebeu aquela dádiva que até os cães gostam, embebido em pagãs asneiras, afogado no meu próprio deleite. E Gabriela mantinha-se muito quieta, arrastando a respiração, olhando-me com uma expressão vazia, enquanto o meu pénis se debatia entre as suas nádegas, afogado no esperma elanguescente do nosso prazer.
       Delimitada tambem ela ao seu aconchego de prazer, vi-a deitar-se a meu lado, soluçando num queixume de menina arrependida. Lembro-me que fiquei calado durante muito tempo, percebendo, no silêncio, o choro magoado que os seus lábios serpenteavam.
       – Não te vás embora, por favor! – Vi-a estremecer, mas manteve-se na mesma posição. Temendo assustá-la, mantive-me quieto, perscrutando as suas palavras de contrição. – Agora sei que nunca me perdoarás. Sei que foi falta de delicadeza da minha parte expor-me assim, mas tenta compreender uma coisa, Luis, pressinto que algo se está a passar entre nós. Não é só atracção que sentimos um pelo outro, é mais do que isso. É como se não pudesse viver sem ti e penso que sentes o mesmo por mim. Cada vez que os nossos corpos se juntam pressinto que, a qualquer momento, fundir-se-ão num só. Tenta pelo menos compreender isto, Luis.
       Lembro-me que me senti embaraçado, quando ela implorou que compreendesse aquelas palavras desgarradas, sem nexo, que a sua razão expelia de uma forma endemoninhada. O que mais me aborrecia é que aquela cadela desgraçada tinha toda a razão. Eu estivera dentro dela, sentira os seus fluidos como um flagelo de prazer corroerem-me o pénis tresloucado, e sabia que jamais poderia viver sem ela, sabia que jamais poderia viver sem aquela odorífera vagina rosea impregnada no meio das suas pernas. Era como uma doença: ora num momento algaraviava a sua impudência e, no momento seguinte, já os nossos corpos se contorciam em carícias desconcertantes e em beijos subtis de amantes alienados, como se tivéssemos ouvido o rufar das trombetas do fim do mundo.







      

8

       No dia seguinte, quando abri os olhos, a claridade da manhã penetrou-me na vista como pequenos raios estropiados de calor, deixando atrás de si um rastro incolor de luz. Lembro-me que tive dificuldade em me adaptar ao brilho clarividente que asfixiava o quarto. Quando me ergui da cama senti o corpo estremecer, ao reparar na expressão desconcertada de Gabriela, de pernas cruzadas, sentada na cadeira. Peguei na roupa e dirigi-me à casa-de-banho, sem lhe prestar atenção. Sentia-me cansado, sem paciência para cuidar dos sentimentos magoados que ainda prendia dentro de si. Foi já na casa-de-banho que lhe dirigi a palavra:
       – Estive a pensar na ideia de regressar a Lisboa, sabes? Ainda não decidi, mas até que não era mau de todo.
       Surgindo como que do nada, ela estacou o seu corpo jovial à porta da casa-de-banho, vagueando o olhar pelo sorriso disparatado da minha face e, depois, numa voz animada disse que eu estava a fazer de propósito para a espicaçar. Não a contrariei, pois na verdade, ainda não tinha tomado essa decisão. Havia ainda muito que fazer ali em Beja, apoderar-me do testamento da minha mãe, saber os bens que me deixara, esclarecer com o advogado os caminhos certos para legalizar aquela situação e agradecer a todos os que tinham comparecido ao funeral.
       – Talvez amanhã possamos partir – Disse-lhe, enxugando à toalha turca, a cara ainda suja do violento combate carnívoro da noite. – Se pudesse, partiríamos ainda hoje, mas existem assuntos da mais elevada importância a tratar.
       Ela fez um ar exasperado e tornou a sentar-se na cadeira, cruzando os braços sobre a camisola apertada. Vi o seu peito crescer quando, numa atitude assaz aborrecida, inspirou profundamente.
       – Não tens que dar justificações em casa, Gabriela? – Ela levantou-se, indignada com a minha pergunta. – Detesto desapontar-te, mas acho que seria razoável avisares as pessoas que te querem.
       – Mas tu queres-me, não queres? Só isso me importa.
       – Gostava que não fizesses cenas, querida – Respondi, aborrecido.
       – Em casa só restam os criados e os estúpidos dos guarda-costas – Disse, soltando uma gargalhada.
       Depois, como que imobilizando todos os nervos do corpo, com uma prudente determinação, caminhou para mim, engasgada em sonolentos passos de fêmea submissa.
       – Importas-te que ponha os braços à tua volta?
       Não respondi, procurando na asfixia do quarto a presumível lucidez daquela sua observação. Como não encontrava nenhuma resposta que me pudesse satisfazer àquela sua abrupta mudança de atitude, indignei-me a acenar com a cabeça em sinal de consentimento.
       Quando os seus braços me rodearam o pescoço, numa postura crónica de presa, a roçarem-me na pele a submissão irritante dos seus dedos, senti o meu corpo assumir o molde austero de um Cessna pronto a rasgar o céu com violência. E quando este meu corpo em ebulição, começava a despedaçar as nuvens de roupa que ocultavam o turbojacto do pénis, já a despontar de júbilo, as nossas bocas fundiram-se num vigoroso abraço de beijos perdidos. Os nossos corpos chocaram numa perfeita ousadia, como quem enrosca as mãos no meio das pernas num instante arrefecido. E lá estava eu a sufocar os desejos aflitivos que os seus modos me proporcionavam, procurando esquecer o sofrimento no delírio do pecado. Havia uma proporção no meu entendimento que me impelia para o dilaceramento do nosso contacto, mas, a outra fracção que lançava luz no encéfalo demarcado por ânsias opostas, impunha-se castigando os limites da minha excitação em mergulhos entorpecidos de pénis endurecido. E eu vogava naquele ambiente embriagante de fluxos contraditórios, desfalecendo de vontade, com o cérebro materializado num emicíclo de grupos parlamentares a discutirem referendos plebiscitários sem chegarem a conclusão alguma.
       Mas ela, indiferente à disputa partidária da minha consciência, continuava num esforço impaciente a busca desesperada do orgasmo, murmurando gracejos idílicos de cadela com o cio, ao mesmo tempo que gesticulava os braços em movimentos apressados, rasgando a camisola que lhe comprimia os seios pequenos num sufoco de tampões manchados da menstruação. E foi nesse momento, quando ela debruçando para mim, os seios generosos e ardentes de loba contidos pelo tecido suave de um soutien rosa, que os meus olhos foram violentados por uma sensação de cegueira e tudo à minha volta se tornou num descampado mar de escuridão, enquanto parecia ter perdido o peso peremptório que fazia suster o corpo de pé. Lembro--me que cai no chão, arrastando as mãos pelas suas pernas nuas, os dedos a deslizar em concisos pedidos de ajuda inaudível pelos afiadíssimos pêlos encrespados.
       Por momentos, quando pensei sentir um rasgo de vento bater-me de soslaio no rosto, ouvi uma voz máscula de homem a interpelar-se no gaguejar atrapalhado da rapariga, de como quem num múrmurio de reza chorosa, debita o Corão de uma fresta de mesquita. Depois, antes dos meus sentidos partirem a toda a brida, fechei as pálpebras com força, e tal como costumava fazer diante da insónia, pús-me a imaginar o crepúsculo.









9

       Lembro-me que senti um ardor flagelante corroer-me as pupilas, quando estas, embebidas na bruma de um nevoeiro sem fim, se abriram num espasmo de surpresa para enfrentar o sangue das minhas mãos. Ao descair os braços, abandonado numa atitude de repugnância, pude discernir a silhueta extravasada de regozijo de Gabriela. No canto dos lábios um esplendor cruento sorria-me de soslaio.
       Vi-a cruzar as pernas como as lâminas de uma tesoura sobrepondo-se. A seu lado, um homem me apontava às pupilas uma tremenda luz de ringue de boxe. A sua face, revestida com uma lúgubre pele espinhosa, exprimia a satisfação de um carniceiro de talho a desunir um monte de carne em pedaços esfarelados de condimento enjoativo.
       Ela ergueu-se e o seu olhar percorreu os cantos da sala, onde as lâmpadas indirectas tingiam-lhe os seios de uma penumbra púdica. Depois fixou-me. O esplendor marginal que os seus lábios expressavam quase que se agonizavam de paixão em me devorar. Deixa-me matá-lo já, pediu-lhe o homem desviando-me o olhar. Ela não respondeu, limitando-se a encarar, muito minuciosamente, os rasgões de feridas que me adornavam a face.
       – É pena que estejas a passar por tudo isto, Luis, mas era necessário – Disse, beijando-me ao de leve nos lábios molhados de sangue.
       O meu corpo estremeceu de convulsões e quando tentei articular os lábios numa forma de protesto inaudível, o sangue escorreu-me para a língua numa agudeza fria de vidro quebrado. Ela depois afastou-se, apática ao meu sofrimento, em passos estudados de menopáusica dona de boutique, tilitante de pulseiras marroquinas.
       Quando se tornou a sentar ao lado do homem com a cratera da boca escancarada, numa estupefacção ofendida, fui tomado por um penoso senti-               mento de solidão. Lembro-me que uma vaga inquietude me apertou o coração, numa intensa aflição de guerreiro perdido, prestes a sucumbir nas mãos do carrasco.
       Desta vez não cruzara as pernas, deixando-as arqueadas, numa espressão submissa de lacaio à espera das oferendas do seu senhor. Naquele momento amaldiçoei toda a paixão que sentia por ela, amaldiçoei os momentos do nosso aconchego terno e até mesmo aquela vagina rosea perfumada com o toque vertiginoso do nosso prazer.
       Ela inspirou profundamente e as suas mãos avançaram, numa vertigem embriagante, para o sexo que estremecia ao contacto apertado das calcinhas. E numa apetência voraz, os dedos começaram a descrever círculos estimulantes, já com o anel de Vénus a soluçar vontades arrebatadoras de imperdoáveis pecados.
       – Tinhas toda a razão quando me chamaste puta, Luis – Disse-me, com um sorriso de escárnio pendente nos lábios. – Fui contratada não simplesmente para atrair o teu desejo. Mais... – Interrompeu as pecaminosas palavras ao erguer-se. – Tinha como ordens matar-te – Aquilo rasgou-me o coração de ódio, – depois de encontrar o testamento da tua mãe, evidentemente – Arrematou, num à vontade constrangedor de assassino.
       Lembro-me que queria estrangular aquele pescoço que já sentira o peso incontido da minha língua mas, as forças que ainda vogavam no corpo só me permitiam pensar em esquemas mortíferos de vingança. Sei agora que eram essas ideias flutuantes que me mantinham vivo, acordado entre a intenção bárbara das palavras de Gabriela e o gosto amargo do sangue a gorgolejar na garganta.
       Por fim, quando o seu corpo erubescente de anjo negro parou à minha frente, vi o sorriso de escárnio morrer-lhe nos lábios. Inclinou a cabeça como que para me beijar de novo, mas os lábios limitaram-se a segredarem-me que lhe acariciasse o sexo. Tentei gritar-lhe que parasse com aqueles gracejos e me tirasse a vida duma vez por todas, mas a garganta parecia agora desfeita num mar de sangue. Ouvi-a gritar: Toca-lhe, numa voz imperativa asfixiada de desespero. Lá atrás, escondido pela silhueta da rapariga, o homem começara a libertar grunhidos encolerizados, ao mesmo tempo que os seus pés batiam no chão numa fúria truculenta. Confesso que fiquei aterrorizado naquele ambiente mefistofélico, onde os gritos do homem me perfuravam os ouvidos em dissonantes acordes de histeria e os olhos impávidos de Gabriela me dissipavam os ossos, numa sinfonia incerta de brilhos indefinidos.
       – Chega de merdas! – Ouvi gritar a voz firme de outro homem, escondido algures na penumbra daquela sala. Vi a expressão da rapariga reconhecer aquele brilho que tanto me fascinara e de novo a voz do homem a gritar que parássem com aquele desvario. Gabriela recuou uns passos mansos de gato escaldado e ao voltar-se, os seus olhos confrontaram-se com a face esquartejada de cicatrizes purulentas do homem.
       – O rapaz precisa de descanso, querida – Disse, passando-lhe pela face as mãos repletas de veias a jorrarem de sangue. – Já brincaste demais com o pobre coitado. Agora chegou o momento de dançares para mim – Pediu, de olhar sofrêgo, ao mesmo tempo que os seus dedos lhe apertaram, docemente, o peito concupiscente de pêlos negros, que dormiam pejados de veemência de encontro ao tecido das calças.
       Vi-a contorcer-se de prazer e soltar gemidos caprichosos, enquanto que o homem atrás deles, após ter cessado o seu desassossego de cão rejeitado, olhava-os com um apetite incontido, prestes a devorar com os olhos, as presas lascivas que desfilavam as suas erecções.
       Depois, o homem revestido de cicatrizes, cingíu as mãos pejadas de veias rúbeas à volta da cintura de Gabriela e desapareceram, inebriados pelo odor dos seus corpos, através duma porta oculta na penumbra da sala. A minha atenção foi quebrada pelo ressoar de novos grunhidos do homem que, continuava, numa postura determinante, a segurar aquela medonha luz que me incendiava a vista.
       Até mim chegaram ruidos desconcertantes que provinham da sala escondida na penumbra, onde Gabriela se havia acolhido com aquela disforme figura de homem. E enquanto os meus ouvidos recebiam aqueles uivos lancinantes de corpos extasiados, eu imaginava aquelas mãos repelentes percorrendo os seios pequenos e arrebitados da mulher que me havia levado à loucura, ao prazer imenso que era sentir, edificado na carne tenra da vagina, o peso insustentável do pénis deslizante. E enquanto eu a odiava mais, cuspindo bocados espessos de sangue coagulado, numa atitude parva de me lavar da sua boca, do gosto indelével da sua carne, do odor quente do seu corpo e do brilho indefinido dos seus olhos, o homem de pele espinhosa lançava gritinhos de júbilo, ao ritmo de uma masturbação célere.
       Depois, emergindo como que de uma cama de dossel, extasiado de um sóbrio sonho de penetrações fantasistas, a figura purulenta do homem que brilhava de sangue, surgiu-me à frente. Trazia no rosto uma expressão encolerizada.
       – Não sei como os homens podem ser tão fracos frente a uma mulher – Disse, confrontando-me o olhar. – Até mesmo eu sucumbo perante os seus demasiados encantos. É patético. É pena o que o Cabral fez ao teu rosto – E olhou de soslaio para o homem ainda a masturbar-se. -- Mas o Cabral é doido, gosta de violência, adora mordiscar carne humana. Tambem ele tem o desejo patético por mulheres. É uma doença, sabes? Claro que sabes. Tu bem sabes como é viver dependente da cona duma gaja – E desmanchou-se a rir em gritos desgrenhados de gozo. Depois retirou um papel do bolso enrodilhado do casaco e estendeu-o à minha frente. – Sabes o que isto é? Exacto. O testamento da tua querida mãe. Deves-te estar a perguntar como ele chegou até às minhas mãos, não é? Mas já deves ter compreendido que foi ela que mo trouxe – E olhou, numa expressão esbatida, para o corpo de Gabriela.
       Lembro-me, como se a estivesse ainda a ver, da agonia que se acercou do meu corpo. Agora podia ver, já sem a iminente obscuridade a vedar-me o olhar, o corpo de Gabriela estendido no chão daquela sala pecaminosa. Um enjoo comprimiu-me as entranhas e tive vontade de vomitar ao discernir um fio de sangue a reluzir nas suas pernas de deusa martirizada. Quis chorar, mas o sangue seco atulhado nas pálpebras não me permitiu. Fiquei, simplesmente, de olhar condescendente, a desfalecer de mágoa, magnetizado pelo esplendor rúbeo que cobria as suas pernas: um rio sufocante de lixo a vogar sem destino na aparente sinceridade do seu olhar morto.
       – Realmente é aborrecido o que aconteceu a Gabriela – Disse o homem, ao reparar na minha expressão de desconsolo. – Era uma míuda e pêras. Uma autêntica companhia de se lhe tirar o chapéu. Um corpo divino de anjo de porcelana. Na cama... um jorro incansável de delícias, um corpo possesso de prazer. 
       E eu a ouvi-lo, silencioso, ardendo por dentro, amaldiçoando as dores que imortalizavam a paciência da minha fúria. Lembro-me que estiquei os braços, numa atitude patética, de me apoderar do seu pescoço e torcer-lho sem modéstias. Mas a minha perturbação levou-me a movimentos ridículos de bailarina em saltos indelicados.
       – Que imbecilidade – Criticou o homem. – Bem, vamos ao que interessa. Não te preocupes que não vais morrer... ainda. Bom...
       O que se passou de seguida foi intragável. Ao ouvir as suas palavras, parecia que estava a assistir a um monólogo de náuseas, onde o actor rasgava a atmosfera com as suas palavras desumanas – digno carrasco mutilado pelo ensejo de trucidar. E, à medida que as suas palavras desesperavam pela sala, estridentes, suspensas em desoladas revelações, um odor fétido a decomposição penetrava-me nas narinas, num sufoco de mulher grávida a despontar o corpo vigilante do filho embriagado em sangue.
       Quando despertei daquele enjoo, a voz do homem parecia mais perto que quase podia discernir os nervos agitarem-se debaixo da pele, em constantes compassos de nervosismo. Mas, e para repugnância minha, não eram os nervos a desalmarem em ofegantes respirações, mas sim, as cicatrizes que começavam a liquefazerem-se num pus descorado. O homem sorriu ao sentir o liquído resvalar os lábios secos e, numa atitude descomedida, passou os dedos pelas feridas que tinham como que ganho vida e disparatou em gritos de exultação.
       – Bom – gorgolejou o homem, – como ainda não tiveste oportunidade de leres o testamento, vou, simplesmente, eliminar alguns pormenores. Quando tu partiste de Beja, à cerca de dez anos atrás, a tua querida mãe ficou enamorada de um senhor abastado que se tinha mudado à pouco tempo. É certo que foi um namoro patético o deles, onde os beijos eram trocados no silêncio acólito dos empregados desse mesmo senhor. Mas, na verdade, e apesar dos encontros às escondidas, eles amavam-se mútuamente. – Calou-se, perscrutando a intensa claridade reflectida na minha cara. Ouvi-o ordenar ao outro homem que desligasse aquela luz aterradora. Quando assim o fez, senti uma brisa forte agitar-me os cabelos. Quando tornou a falar, encontrava-se sentado ao lado do carniceiro. – Esse tal senhor abastado tinha uma filha que, por sua vez, era contra esses encontros adolescentes. – Tornou a olhar o corpo morto de Gabriela na outra sala. – Sim, a filha desse tal senhor era Gabriela. Bem, o pai já tu tiveste o prazer de observar aquela sua cara estúpida de contrabandista. Não ligues à história de ela te ter contado que era puta. Fui eu que a obriguei a apreender certos gestos e atitudes que as putas geralmente usam. Era necessário que caisses nas minhas mãos, muito antes de puderes tocar neste maravilhoso papel – E sorriu para o testamento que jazía nas suas mãos.
       O meu rosto estava petrificado com aquelas palavras tão cheias de sangue, tão cheias de culpa. Quase podia sentir as veias do meu corpo rebentarem-se numa uníssona luta democrática, agoniado com tudo aquilo. E eu, numa atenção constante, a ouvir aquele homem saído duma tribo de possessos canibais, sem compreender as suas atrevidas ilações. Eu achava-me no antro de incomensuráveis perguntas, numa autêntica ilíade sem heróis: como era possível a minha mãe ter-se dado com outro homem senão o meu pai? Ela que era contra a existência de amantes e, ainda por cima, contrabandista? E com uma filha? O que mais me magoava, era o facto de ela me ter ocultado tudo aquilo. Estas perguntas sibilavam na mente com a irritação simplória dos assobios das moscas.
       – Patético, não é verdade? – Inquiriu o homem como se tivesse capacidade mística de um vidente. – Mas, continuemos – Sugeriu, tornando a erguer-se. – Passado algum tempo de luxúria sem brilho, resolvi tomar uma atitude para com o meu senhor. – Olhou-me com frieza e depois prosseguiu. – Claro que não és estúpido nenhum e já compreendeste que eu e, aqui o amigo Cabral éramos os seus guarda-costas, é óbvio, não é? Bom, resolvi fazer um pacto com o meu senhor. Eu sabia, incrivel como estas coisas se sabem, que a tua mãe tinha uma fortuna algures escondida e resolvi contar-lhe tudo. O raio do velho a princípio não queria ceder ao cumprimento do pacto, onde eu exigia a sua filha em troca da fortuna. Mas, ganancioso como ele era, sabia que não ía resistir àquela tentação. O pior de tudo é que a merda das coisas correram para o torto. Pouco tempo depois, a estúpida da tua mãe resolveu contar ao velho o segredo da sua fortuna e, claro está, fiquei de mãos a abanar. Resolvi então magicar um plano com o amigo Cabral para eliminarmos o cabrão do velho duma vez por todas. Antes do velho morrer, obriguei a tua mãe a assinar um testamento onde ela me legalizava todos os seus bens. Por feliz coincidência a tua mãe esticou o pernil mesmo antes de matarmos o velho – Disse aquilo num esgar de felicidade, com a boca escancarada, num guincho frenético de puta mal parida. – Foi nessa altura que outro obstáculo se intrometeu à minha frente: Gabriela. Era contra a morte do pai, apesar dos seus assíduos desentendimentos. Fui obrigado a fazer chantagem com ela. Mas, ao fim e ao cabo, nem sequer chegou a ser chantagem, visto ela ter aceite matar o velho em troca duma elevada parte dos bens da tua mãe, sem contar com o direito que ela tinha por ser a legítima herdeira do velho. Bom, deu-lhe foi um ataque de raiva e, aproveitando aquela doce oportunidade, vingou-se. – Tornou a sentar-se e, aproveitou para acariciar o sexo que berrava dentro das calças. – Nunca gostei de mulheres, mas, para levar o plano até ao fim, tive que me sujeitar aos caprichos de Gabriela. Bom, já sabes de tudo o que se passou. É claro que nunca foi minha intenção pôr-te as mãos em cima, mas os vícios pagam-se caro. Gabriela tinha como missão seduzir-te, para que a deixasses fazer tudo o que lhe apetecesse. Mas, como vi que ela estava realmente a apaixonar-se por ti, resolvi acabar com essas lamúrias patéticas e dar-te um enxerto de porrada. Sabes, é que eu tinha um certo fraquinho por ti – Ríu-se, com todos os dentes que tinha na boca e, foi então que, da braguilha das calças emergíu uma cabeça vermelha e depois um ombro engelhado de pele adormecida. – Trouxe-te aqui, para esta cave, com o fim imoral de me saciares o desejo. Tive de matar aquela lambisgóia de merda para não mexer na fortuna. Minha e do amigo Cabral. Era tambem desagradável que ela presenciasse à castração do teu pobre pénis – Arrematou, num grito solto cujo eco se repercutou por toda a sala.
       Vi o outro homem dirigir-se a mim, com um sorriso a desfalecer no canto dos lábios. Agarrou-me pelos braços e levou-me de rastos até à cadeira onde o outro, de pernas abertas, massajava o membro com regozijo.
       – Vá, chupa! – Ordenou, diante da minha figura ridícula de gestos indecisos. – Vá, chupa-me a merda da piça, cabrão!
       Lembro-me que caí de encontro ao chão, sufocado na escuridão gelada que se apoderara de mim. E nesse momento, quando imaginava a morte na sua longa carruagem, puxada por dois magníficos cavalos negros, sonhei com ela, sim com Gabriela. Sonhei com a sua língua dardejante e a sua odorífera vagina a gemer contra o peso incontido do meu corpo. Depois, embriagado num suspiro surdo, deixei de sonhar.










10

       Quando devassei a escuridão com os olhos, uma luz branca oscilou por cima da minha cabeça. Olhei para o lençol fedorento que me cobria o corpo e depois para as paredes cinzentas, repletas de aparelhos hospitalares. À minha frente, envolta numa dança sem som, surgiu uma mulher de pequenas e irredutíveis pupilas. Ficou ali, de braços cambaleantes, a olhar-me sem interesse, enquanto o corpo se contorcia em espasmos de dançarina de cabaret.
       Ao lado da silhueta da mulher distingui a face esquartejada do homossexual, tilitando os dentes de inconformismo.
       – Pensas que és muito homem, não é? – Inquiriu ele, perscrutando a minha intranquilidade. – Então vou dar-te a hipótese de mo provares. E coragem para mo provares, será que tens? Ou será que a perdeste pelo rego do cú acima? Um homem, para ser homem, precisa de ter coragem. É isso que faz um homenzarrão, ouviste cabrão?
       Ouviu-o murmurar qualquer coisa para a mulher e depois, em movimentos singelos de inibição, vi-a despir o soutien, soltando uns seios espessos de carne branca. Ele passou os dedos pelos mamilos e comprimiu-os contra a palma da mão.
       – Olha-os bem, cabrão – grunhiu o homem, soltando os mamilos, – pois não tornarás a ver mamas destas para o lugar onde vais.
       Com um estalo de dedos, a figura de carniceiro de Cabral prostrou-se a seu lado, manejando uma seringa.
       – Olha bem à tua volta – Disse o homem, segurando na seringa. – Em tempos fui um bom cirurgião. Foi o pai de Gabriela quem arruinou a minha carreira, é bom que o saibas. Aquilo é que era um homem de vontades, um administrador da merda. Um filho da puta cheio de massa. Mas, como vez, perdi não só as minhas feições como tambem muitos dos meus instrumentos. Mantenho este barranco, aqui na cave, para dar vida às faces inanimadas das mulheres que se sentem rejeitadas pelo seu dom vergonhoso com que passeiam as trombas. Já não sou grande coisa a manejar os instrumentos. Falta-me a capacidade de concentração. Mesmo estas feridas que jorram da minha cara foram por culpa desse velho senil. É mesmo bom que esteja morto.
       Lembro-me que tentei articular de novo os lábios, mas estes continuavam presos ao sangue, impossibilitando-me de lhe chamar todos os nomes possíveis.
       – Não te preocupes, para onde vais não precisas de abrir a boca – Informou com um sorriso sarcástico. – Um homem, aquele com coragem, lembras-te?, não receia a morte, não é assim, cabrão? Aceita-a, simplesmente. É um destino a que ninguém pode escapar. O uivo da morte é bem mais agonizante do que o sufoco do desmaio. Que merda de homem és tu? Um homem não desmaia, ouviste cabrão?
       Vi-o depois erguer a seringa e o líquido branco que dançava no seu interior, sorriu-me com desdém. Senti de novo as náuseas percorrerem-me a espinha, numa alucinação desajeitada de vómito.
       – Chegou o momento de mostrares a tua qualidade de homem. Ser-te-á mais doloroso se recusares a morte. Deixa o veneno soar a sua impiedade nas veias e depois poderás morrer em sossego. Quem me dera ter uma morte como a tua.
       Vi-o depois entregar a seringa à mulher, agora de mamilos retesidos, e, antes da sua presença desaparecer da minha vista embriagada, ouvi-o murmurar que além de ter sido traído por uma puta, iria bater as botas à mercê de outra. Vi-a avançar para mim, empunhando a seringa, de seios a jorrarem desejos incontroláveis por línguas famintas.
       E, depois, a escuridão.
       E tudo começou quando acordei.
       Lembro-me que sentia um cansaço tremendo quando abri os olhos, submerso na vigília insultuosa da mulher. Vi-a sorrir com desdém quando me injectou a seringa num dos braços e, afogado no entorpecimento que me trespassava a carne, fechei os olhos duma vez por todas e, amaldiçoei, para sempre, a puta desta vida.

Cova da Piedade
Junho
1992

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